segunda-feira, 24 de maio de 2010

Coerência Ética E Vegetarianismo: Reflexões de UM Vegetariano.

Meu primeiro contato com vegetarianismo se deu através de uma grande amiga que me falava em algumas conversas, sobre a indústria da carne, sobre como os animais e os humanos possuem em comum a capacidade de sofrer, e o interesse em sobreviver e coisas afins. Na mesma época também começava a rever muitos aspectos de minha vida, e eis que essa foi a fenda numa armadura construída por anos de contato com um meio que naturaliza qualquer relação com espécimes não-humanos, desde o aconchegante afago doméstico que se dispõe a um cão ou gato, até um comportamento mais violento cometido contra bovinos para se alcançar determinados fins...

Uma das coisas que ouvia quando passei a freqüentar espaços onde havia certas discussões sobre o tema era a questão da “pena” dos “bichinhos”, isso era contestado por algumas pessoas, mas na época não era claro para mim, talvez porque não compreendera a ligação entre esse aspecto da relação entre humanos e não-humanos e coerência ética. Afinal de contas do que se tem pena? Daí trava-se outra longa discussão para se chegar à conclusão de que “pena” remete a uma espécie de hierarquização que se constrói essencialmente de conceitos relativos, que não respondem necessariamente à ética que por nós era debatida na época, e que com muita satisfação, vejo pessoas tão queridas e de meu convívio debatendo via Maracujá com Açúcar.

Aquilo foi cabal, pensei: “pena implica em uma imediata hierarquização entre o fraco e o forte, entre o mais importante e o menos importante”. E então percebi o quanto eu não dava a mínima pra quem ocupa o topo da cadeia alimentar ou para quem sofre ou deixa de sofrer, simplesmente descobri que o “tornar-se vegetariano” seria o meio mais plausível de tentar encontrar-me com a idéia que o que chamam de “Veganismo” representa. A idéia é rever o papel de cada coisa envolvida nessa interação e em várias outras, não se trata para mim, de uma rompante de sensibilidade e altruísmo teledramatúrgico, a FRAQUEZA disso é óbvia e resulta em oscilações de comportamento ético no mínimo estranhas.

Ao tentar estabelecer a lógica do pensamento que leva a abster-me do consumo de QUALQUER produto derivado de não-humanos, não faz sentido abster-me do consumo de carne bovina, mas consumir camarão porque o camarão sofre menos, quando entre os dois se estabelece um mínimo de similaridade necessária para que ambos estejam compreendidos no Reino Animal, ou seja, seres que independente do grau de sofrimento, são sencientes. Que tipo de relação entre mim e não-humanos estabeleço quando alego que a indústria de leite ou de ovos é menos CRUEL que a indústria da carne?!

Admito que a compaixão foi o que me aproximou da provocação ao que vivia na época, mas percebi posteriormente a real conotação de “compaixão” – a capacidade de em um mesmo plano me considerar no lugar do outro – e nem de longe permiti que isso se ressignificasse e que se tornasse justificativa para o que vivo hoje, e com o tempo fui tomando desgosto e antipatia por tais concepções que no fundo tentam abarcar proporções certamente doutrinárias, o que aos poucos dissocia a prática do raciocínio nada academicista porém de simples consideração, que resulta no vegetarianismo.

Então percebo que não comer carne de nenhum tipo, não usar vestimenta ou acessórios de couro, seda ou lã, não consumir mel, ou freqüentar lugares que de alguma maneira exploram animais não-humanos – circos, vaquejadas, exposições de cães, “pet shop” e similares –, e tentar ao máximo me abster de qualquer prática que leve ao uso técnico e explorativo de animais – e incluo os humanos aqui – são ações que transcendem inclusive os modismos e a vontade de andar conforme eles, que não se trata de ser vegetariano porque “Skinny Bitch” é a dieta da Victoria Beckham, ou porque está em alta ser “cool” com os amigos, ser politicamente correto, ser moderninho... porque estamos na Era de Aquário e bobagens assim. E ainda mais, excede os conflitos pífios sobre situações-limite, onde seu poder de escolha envolve diretamente a possibilidade de sobreviver a tal situação.

Um exemplo de como a “doutrinação” é perigosa para a questão, é a Igreja Adventista do Sétimo Dia, que enquanto instituição abomina, condena e demoniza o consumo ou utilização de quaisquer derivativos da relação de exploração de não-humanos por humanos – e de fato, adeptos mais conservadores da doutrina consideram tal ação ideal – mas que seus conscientes individuais, especialmente de suas gerações mais recentes, simplesmente não conseguem perceber o que isso significa e tão pouco praticar o que se considera "ideal" porque apesar da doutrina estar no fundo ligada também ao “valor ético da vida”, ela estendeu sua repulsa por muito mais tempo do que seu raciocínio pronto foi capaz de suportar.

E esse é sem dúvida o maior erro que se comete ao se pensar não só em vegetarianismo, mas em qualquer concepção que leve à militância seja ela relativa a qualquer aspecto da vida, creditar e comprar idéias prontas ou um rol delas, ausentar-se de qualquer problematização, engessar concepções e repetir discursos “propagandistas” de teor doutrinário, que depois quebrarão porque em essência eram tão frágeis quanto o sentimentalismo que motivou e que alimenta atitudes correntes ligadas ao vegetarianismo. É ir muito além da reação de duas adventistas que conversavam comigo e esboçaram um hilário e incômodo “Está vendo irmã?! Nós que somos crentes deveríamos tomar vergonha na cara e fazer o mesmo”.

12 comentários:

  1. Entendo absolutamente seu radicalismo, Wesley. E o considero VERDADEIRO.

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  2. eu não acho que deixei o vegetarianismo porque eu aderi ao discurso propagandista, tem gente que adere a isso e morre vegan...
    eu simplesmente acho carne gostosa!

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  3. Idem.
    Com tudo o de complicado que o conceito de "verdade" implica!

    Belíssimo desfecho dialógico!

    WPC>

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  4. Thiago, diz-se vegetariano todo aquele que alimenta-se exclusivamente de fontes vegetais. Por isso não se chama simplesmente pessoas que consomem ovos e leite de "vegetarianos", mas de "ovolactovegetarianos".

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  5. ok. entendi, gatinho.

    vou refazer meu comentário.
    Considero seu radicalismo o mais próximo da verdade possível...

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  6. Tati, o seu "acho carne gostosa" foi foda... estou rindo até agora.

    E WESLEY PC... sinceramente... sinceramente, havia entendido sua atitude vegetariana desde a explicação no Blog Da comunidade Gomorra, e eles já haviam me convencido, mas isso do discurso de Jadson estava na minha garganta me sufocando.

    Eu admito que fui grosso, se puder me perdoar...

    Pensei que estava tomando as dores... e isso me irritou.

    Eu quero ver Jadson se explicar. Tá vendo porque não quis levar a diante a discussão na Treze. Pq ia desmacarar pessoas e ia com certeza causar mal estar. Como acabei causando aqui. Quando falo de verdadeiro quis fazer alusão à Tal Práxis de Jadson,
    eu clamo por ele agora...

    Jadson, explique-se... eu imploro.

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  7. Estás a ver, Tiago, por que NÃO se pode calar quando tem oportunidade? Se tu tivesses exposto tua coisa "engasgada" lá, seria bem menos exaustivo do que hoje...
    Não te exporias tanto, não largarias ao mundo risadas auto-assumidas como "burras" de que talvez se arrepndas no futuro, mas... Insisto: concordemos, por enquanto, com a "verdade" (sem ironias) de UM vegetariano (nosso amigo Wesley) e conversemos sobre isso pessoalmente, sem estresse, sem ódio, sem desentendimento e com AMOR, que a causa é maior que nós! Mas nós precisamos estar bem para defeendê-la. É via de mão dupla!

    Amo-vos!

    WPC>

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  8. 1 - Vc se importanto com exposição? (fui sincero, isso me basta);
    2 - Burrice SINCERA, meu bem, é sempre passageira;
    3- A CAUSA É MUITO MAIOR QUE NÓS. concordo absolutamente.

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  9. amo-vos tb, muito,
    agora visceralemente.

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  10. Meu querido Tiago,

    Ou eu não te entendo ou você não me entende ou não queremos nos entender! hoje pela manha conversei com Wesley Soares e vi o quanto ele parecia ser o mais dentre todos (me incluo nessa) COERENTE, como bem aponta o texto dele, encoragei ele a escrever e percebo que tal questão vai além de um utiitarismo preferencial que me apego tanto, e digo me apego pois é a teoria que conheço que mais chega perto de um "ideal discursivo" para não sair por ai arrotando besteira sem nenhuma base argumentativa. Ele me disse hoje " não faço parte da igreja de Singer" o que me deixou muito feliz, ele concebe a ideia de um vegetarianismo para além do discurso é pratica mesmo! o que me deixa muito feliz poder pensar assim depois de nosso diálogo aqui, mesmo que em momentos alguns preferem não argumetar e gritar opiniões ocas ou mesmo quando enchemos de farpas as respostas. Poderia aqui travar uma discussão de argumentos com wesley soares, mas para além do simples convencer, existe uma causa por trás de tudo isso e concordo que o que foi posto por Wesley pois vai além do discurso está na prática e mesmo que nada do que ele falou falseou meu discurso! Eu sou ovalacteovegetariano o que é de fato um início já bem dificil pra mim que fui acostumado a comer carne de todo tipo,menos humana é claro, e que um dia gostei e muito, o que não é desculpa alguma pra continuar a comer desde o momento em que tive acesso e entendi novos valores, não há uma lei que proiba o consumo de carne, mas há uma lei que diz que não podemos matar um ser humano, não matamos humanos(salvo excessões é claro, vide tati(risos)) por que temos um valor que vai além da lei imposta socialmente?

    Abraços a todos, eu também os amo!

    Wesley Soares beijos gigantescos em sua boquinha érotica!

    Jt

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  11. Meu querido Jadson,
    você é o que a sua fome lhe permitir...

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