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sexta-feira, 20 de maio de 2011

Sobre os rios de negras águas

Tenho as mãos trêmulas de muito frio, muitos cafés e cigarros. E de muita fartura de vida.
Cansam-me os intelectuais. E cada vez mais me encantam os livros.
Sempre gostei dos interlocutores silenciosos, meio mudos. Por esse motivo, tanto falo com portas, janelas, plantas e pássaros. E com os espíritos que quando zombam de mim, ainda assim o fazem em mudo silêncio.
Está frio e ela chega de moto. Usa jeans, casaco e botas. Tira o capacete. Seus cabelos não são longos. Sorri francamente. Também com os olhos. E é bela.
Mergulho em mim e fujo.
Sei que mergulharia em outros lugares, outros rios. Mas o rio, os rios ficam dentro de nós. Acostumamos com suas águas. Ainda que sejam negras. Ainda que sintamos medo. E o meu rio (de medos e de alegrias) não está aqui nesta terra de frio, nem nestes olhos de riso.
E é por isso que eu fujo. Fujo de lá e fujo de cá. E caminho, sozinha, por entre meus mudos interlocutores, a falar e ouvir noutra linguagem que não apenas a verbal.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Linda não, aquelas tuias

Olha só a caboquinha que baixou no meu sonhar
Linda não, aquelas tuia
Meu sonho foi pras cucuia quando dei fé de olhar.
Bem dizer, o jeito dela era um cristal de flanela de tanto fofo e brilhar
De lindeza bem muitona, de fofura desossada
Beicinho do bago grosso de bicudez encarnada
Um pilãozinho de cintura, dez léguas de formosura de vastidão deleitada
Criaturinha agarroza, festejosa no chegar
Cosquenta pelo cangote, mulecota nos coisar
Com três horas de espio, não dá pro cabra espiar
De tanto perigo afoito, trinta e sete, trinta e oito, os chinelins de pisar
Dois risquin de sobrancelha, os ói azul festejado
Platibandinha de testa, sem franzido ou pinicado
Linda não, aquelas tuia
Dei dois viva de aleluia, nesse sonho iluminado.
Mas repare meu cumpade, Cuma se deu o sonhado
A mãe dela intrometeu-se, de oxente interrogado
Eu só estou, caboquinha, tu essa hora sozinha nesse sonho amatutado
Sois cabocla apetrechada, de padrescíceras virtudes
Não te mete no destroço de viver de sonho e osso com o fulaninho dos grudes
Tu sois a miss lindeira, primeira nata da nata
Baliza tricampeã do estadual da Prata
Sois cabocla zero um, dos CPF tudin
Zero um das bonitezas, rainha das maciezas, sois discípla do pudim
Vai-te embora desse sonho, repara teu atrapalho
Tu podes morrer pisada pelos coturnos do orvalho
Será que tu não enxerga que esse sonho é coisa ruim?
Se teu pai não fizer não nada, dou-te uma surra bem dada, com uma fita de cetim
Acordei mais retesado, do que tora de imbúia
Banhei o rosto vincado, com quatro águas de cuia
Nunca mais sonhei com ela.
Uh... desorderinha dela
Linda não, aquelas tuia.
(Jessier Quirino)

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

O cuscuz do dia-a-dia

Em matéria de mei doido
Eu me sinto mais ou menos
Dei com as palavras no palco
Feito um Biu de paletó
Severino pra platéia.
Usei palavras plebeias
Que nunca puderam entrar
Em discurso ou poesia.
Palavras soltas, baldias
Daquelas só disponíveis
Nas últimas nuvens do céu.
Conversei com flamboaiãs
No puro flamboaianês.
Despejei cachos de lágrimas
Pros versos de Assaré.
Beijos de rapadura
Pro vozeirão de Luiz
Sofri adivinhaduras
No sertão do pensamento.
Senti, naquele momento
Que isso era um fazimento
Democrático feito jeans.
Sem rodeio e sem pantins
Sem nhenhenhém, sem besteira
Fiz de velhas cuscuzeiras
Um gordo baú de flandre
Forjado em Campina Grande
Com três tons de serventia:
Deixar minha poesia
Meu verso e meu converseiro
Com textura cor e cheiro
Do cuscuz do dia-a-dia.
(Jessier Quirino)

P.S.: Lembro-me de quando estive em Brasília, uma garota, de repente falou em cuscuz. Era tarde da noite. E ficamos querendo comer cuscuz. Cheguei a sentir o cheiro do cuscuz. A boca salivando. A memória também é olfativa.