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sexta-feira, 20 de maio de 2011

Sobre os rios de negras águas

Tenho as mãos trêmulas de muito frio, muitos cafés e cigarros. E de muita fartura de vida.
Cansam-me os intelectuais. E cada vez mais me encantam os livros.
Sempre gostei dos interlocutores silenciosos, meio mudos. Por esse motivo, tanto falo com portas, janelas, plantas e pássaros. E com os espíritos que quando zombam de mim, ainda assim o fazem em mudo silêncio.
Está frio e ela chega de moto. Usa jeans, casaco e botas. Tira o capacete. Seus cabelos não são longos. Sorri francamente. Também com os olhos. E é bela.
Mergulho em mim e fujo.
Sei que mergulharia em outros lugares, outros rios. Mas o rio, os rios ficam dentro de nós. Acostumamos com suas águas. Ainda que sejam negras. Ainda que sintamos medo. E o meu rio (de medos e de alegrias) não está aqui nesta terra de frio, nem nestes olhos de riso.
E é por isso que eu fujo. Fujo de lá e fujo de cá. E caminho, sozinha, por entre meus mudos interlocutores, a falar e ouvir noutra linguagem que não apenas a verbal.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Rabbits

Rabbits é uma série, dirigida por David Lynch, com oito episódios e, ao todo, dura mais ou menos 43 minutos.
São trÊs atores vestidos de coelhos, numa sala, a falarem coisas desconectadas uns com os outros. A cada entrada ou a cada uma ou outra descomunicação, ouvimos aplausos de um público, o que nos remete a programas cômicos de TV.
Nunca havia assistido outra coisa de Lynch que o Veludo Azul. A bactéria, a prostração, a insônia, me levaram a essa vontade de vê-lo mais.
Assim que terminei de assistir à série, que vim a saber é denominada por websisódios, uma vez que parece estar disponível no site do diretor, liguei para Jadson. Queria compreender, não no sentido já escrito e debatido por Tiaguinho, mas o problema é que nem mesmo sentir eu conseguia. Não me capturou nem pelo inteligível nem, pelo sensível e nem me deixoud esgrudar os olhos dos tais websisódios.
Queria ir até o final para saber se haveria algo mais. Os planos mais lembraram-me teatro filmado. Os sons, muitas vezes irritam. Assim como a ininteligibilidade. E o problema nem era eu não alcançar ou me sentir pequena por conta da não alcançabilidade. O problema era: o que é que ele qeuria com aquilo? O que transgredia? um jeito de se fazer cinema? Um costume de uma classe? O comprotamento do ser humano? A incomunicabilidade?
Jadson não havia assistido. E eu prometi que se eu procurasse explicações com as pessoas, na Internet, nos lviros, fosse onde fosse e a encontrasse, eu prometi que trataria de qualquer assunto, eu mesma, falando em árabe, em alemão, russo, japonês, de agora em diante.
Vim para o mais rápido e fácil: a lan hause. Não encotnrei grandes coisas que fosse diferentes das impressões que tive ao assistir à série.
Li coisas sobre o diretor ser "um profissional hiperativo que diz não conseguir ficar parado, sempre buscando alguma forma de realizar seu trabalho, seja no cinema, na tv, na fotografia ou em mídias experimentais como foi o caso de Rabbits, lançado inicialmente em seu site como websisódios".
Tenho que admitir que Rabbits é estranho, diferente e que vale a pena ver e buscar. Buscar não sei ainda o quê. Quem puder e quiser: me ajude.

E eu, assim imersa em bactéria e em David Lynch, quando escrevia esse post, recebi ligação de Wesley PC. Claro que não acho que seja por acaso.
 Ele me esclareceu coisas sobre o diretor, incluive falou sobre a saturação disso de ele ser sempre ininteligível, que ultimamente tem sido um teipo de "forçação de barra". Wesley junto com Jadson são dois monstrinhos comedores de filmes, né? Não viram essa tal de websisódio, mas sempre salvam, ajudam, esclarecem.
Vou continuar assistindo David Lynch. Já não vou me assustar com nada.
Gostei muito de Inland Empire. Vou olhar de novo para Rabbits. E tomara que essa bactéria saia logo de mim, porque revendo Naked Lunch, de David Cronenberg, quase senti uma enorme centopéia em minha garganta (invenção pura essa minha, agora) de tanto ela coçar.
Juro que o barato do pó, do inceticida, no filme, quase me fez espirrar e enxergar uma grande barata com boca falante e desejante de pó no meu velho computador!
Claro que o bichinho do qual mais gosto, no filme, é aquele quase escorpião meio bunda, meio pinto...
Ok. Isso não é um jeito bom de analisar nem de falar de filmes, né?
Além de infectada por bactérias, estou ficando sacrílega. Tmabém, pudera! Por que raios no Brasil não é Almoço Nu o nome do filme e sim "Mistérios e paixões", hein?
Bem, deixa eu voltar para meus contos, porque o cinema está me deixando confusa...


terça-feira, 13 de julho de 2010

Sobre entendimentos, sentimentos e revoluções.


Discutíamos no Tribus, um barzinho esquisito (no mal sentido) da cidade, para o qual roda e vira, vira e roda damos as caras. Falamos de música de mulheres cantoras. Conversamos sobre Elis e sobre Gal. Lembro que Wesley Soares e Jadito defendiam a postura de Gal Costa nos primórdios de sua carreira e eu lembrando aos dois o fato de que a Elis manteve-se coerente até a morte... No mesmo fim de semana, na manhã do mesmo sábado ouvi “Dois pra lá, dois pra Cá”, um tango brasileiro composto por João Bosco e Aldir Blanc, cravado em minh’alma pela voz de Elis Regina. Uma música-mulher como a já mencionada aqui por Ninete, Atrás da Porta.

De fato conheço pouco da Gal e se Jadito e Cintinho dizem de suas qualidades eu acredito de olhos fechados, mas sabem o lance do sentir, do sentimento...? foi a isso que me apeguei na vida e é a isso que me apego nos últimos dias... (lembro aqui do poema Ensinamento da Adélia Prado, postado por Ninete, essa provocadora de minh’alma-perturbada – eis a minha essência, Jadito (rsrs): “(...) a coisa mais fina do mundo é o sentimento”.

Entender, entender, até entendo algumas coisas, disso, daquilo, mas para que essas coisas saiam do estado de coisas e consigam um status de relevância dominante eu preciso antes de tudo senti-las. Assim, as reconheço. Só assim farão diferença para mim. (estou agora me confessando ideologicamente) Elis, Elis, por que Elis? Por causa do “Band-aid no calcanhar...” que só ela tem o tom certo para dizer isso para mim. A questão aqui é: Por que devo entender antes de sentir? Dentro de mim, em algum lugar entre os meus pensamentos essa “ponta de um torturante” me causou revolução, sem claros entendimentos, mas sem dúvidas de que sou outro.

Água Viva de Clarice Lispector, em cima da cama, me emprenhando e me fazendo parir ali mesmo, uma interpretação de Elis Regina e eu tod(a) confus(a), esse poema de Adélia Prado, os desejos e os sofrimentos da minha mãe doados em sacrifício ao deus-Família. De nada tenho limpo entendimento, mas condenso tudo isso e faço a minha revolução.


Em homenagem à Ninete e às vaginas pulsantes desse mundo:


Dois Pra lá, Dois pra cá

Composição: João Bosco e Aldir Blanc


Sentindo frio em minh'alma
Te convidei pra dançar
A tua voz me acalmava
São dois pra lá, dois pra cá

Meu coração traiçoeiro
Batia mais que o bongô
Tremia mais que as maracas
Descompassado de amor

Minha cabeça rodando
Rodava mais que os casais
O teu perfume gardênia
E não me pergunte mais

A tua mão no pescoço
As tuas costas macias
Por quanto tempo rondaram
As minhas noites vazias

No dedo um falso brilhante
Brincos iguais ao colar
E a ponta de um torturante
Band-aid no calcanhar

Eu hoje me embriagando
De whisky com guaraná
Ouvi tua voz sussurrando
São dois pra lá, dois pra cá.


T.