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terça-feira, 19 de abril de 2011

AO "DAS FICÇÕES"

Ouvira falar em Clarice Lispector na juventude. Ontem ganhou de uma amiga “Água Viva” e, acostumada a ler livros de auto-ajuda, abriu-o com esperança e a mensagem do dia foi “Não é confortável o que te escrevo. Não faço confidências. Antes me metalizo. E não te sou e me sou confortável; minha palavra estala no espaço do dia. O que saberás de mim é a sombra da flecha que se fincou no alvo. Só pegarei inutilmente uma sombra que não ocupa lugar no espaço, e o que apenas importa é o dardo. Construo algo isento de mim e de ti – eis a minha liberdade que leva à morte.”

Fechou-o e leu-o depois, do início ao fim, perplexa, cheia de fascínio e horror com a realidade de que não há ajuda alguma. Viciou-se, instantaneamente, em liberdade.

sexta-feira, 18 de março de 2011

A carta de Berna

Bom, como citei essa carta, não acho nada ruim postá-la aqui. O texto é lindo e me foi importante demais em algumas fases de minha vida:

Berna, 2 de janeiro de 1947
 
Querida, Não pense que a pessoa tem tanta força assim a ponto de levar qualquer espécie de vida e continuar a mesma. Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso - nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro. Nem sei como lhe explicar minha alma. Mas o que eu queria dizer é que a gente é muito preciosa, e que é somente até um certo ponto que a gente pode desistir de si própria e se dar aos outros e às circunstâncias. Depois que uma pessoa perde o respeito a si mesma e o respeito às suas próprias necessidades - depois disso fica-se um pouco um trapo.
Eu queria tanto, tanto estar junto de você e conversar e contar experiências minhas e dos outros. Você veria que há certos momentos em que o primeiro dever a realizar é em relação a si mesmo. Eu mesma não queria contar a você como estou agora, porque achei inútil. Pretendia apenas lhe contar o meu novo caráter, um mês antes de irmos para o Brasil, para você estar prevenida. Mas espero de tal forma que no navio ou avião que nos leva de volta eu me transforme instantaneamente na antiga que eu era, que talvez nem fosse necessário contar. Querida, quase quatro anos me transformaram muito. Do momento em que me resignei, perdi toda a vivacidade e todo interesse pelas coisas. Você já viu como um touro castrado se transforma num boi? Assim fiquei eu... em que pese a dura comparação... Para me adaptar ao que era inadaptável, para vencer minhas repulsas e meus sonhos, tive que cortar meus grilhões - cortei em mim a forma que poderia fazer mal aos outros e a mim. E com isso cortei também minha força. Espero que você nunca me veja assim resignada, porque é quase repugnante. Espero que no navio que me leve de volta, só a idéia de ver você e de retomar um pouco minha vida - que não era maravilhosa mas era uma vida - eu me transforme inteiramente.
Uma amiga, um dia, encheu-se de coragem, como ela disse e me perguntou: "Você era muito diferente, não era?". Ela disse que me achava ardente e vibrante, e que quando me encontrou agora se disse: ou esta calma excessiva é uma atitude ou então ela mudou tanto que parece quase irreconhecível. Uma outra pessoa disse que eu me movo com lassidão de mulher de cinqüenta anos. Tudo isso você não vai ver nem sentir, queira Deus. Não haveria necessidade de lhe dizer, então. Mas não pude deixar de querer lhe mostrar o que pode acontecer com uma pessoa que fez pacto com todos, e que se esqueceu de que o nó vital de uma pessoa deve ser respeitado. Ouça: respeite mesmo o que é ruim em você - respeite sobretudo o que você imagina que é ruim em você - pelo amor de Deus, não queira fazer de você mesma uma pessoa perfeita - não copie uma pessoa ideal, copie você mesma - é esse o único meio de viver.
Juro por Deus que se houvesse um céu, uma pessoa que se sacrificou por covardia - será punida e irá para um inferno qualquer. Se é que uma vida morna não será punida por essa mesma mornidão. Pegue para você o que lhe pertence, e o que lhe pertence é tudo aquilo que sua vida exige. Parece uma vida amoral. Mas o que é verdadeiramente imoral é ter desistido de si mesma. Espero em Deus que você acredite em mim. Gostaria mesmo que você me visse e assistisse minha vida sem eu saber. Isso seria uma lição para mim. Ver o que pode suceder quando se pactua com a comodidade de alma.
 
Tua Clarice
 
 
Em 95, o escritor Caio Fernando Abreu, então colunista do jornal O Estado de São Paulo, publicou uma carta que teria sido escrita por Clarice Lispector a uma amiga brasileira. Ele comenta, no artigo, que não há nada que comprove sua autenticidade, a não ser o estilo-não estilo de escrita de Clarice Lispector. Ele dizia: "A beleza e o conteúdo de humanidade que a carta contém valem a pena a publicação..."

Para esquentar os motores

Nunca mais escrevi por essas plagas.  Esse o lugar de encontro de pessoas que vivem tão perto e que tanto se encontram e que desencontram também. Eu vivo me desencontrando de mim. E nesses desencontros, quase me perco e quase perco a vontade imensa que sempre tive de escrever nesse Maracujá. Esse Maracujá que se assemelhou tantas vezes ao pequeno planeta do Pequeno Príncipe para mim. Lugar onde bastava eu afastar a cadeira um tantinho para ver um pô-do-sol. E quando eu estava triste, afastava a cadeirinha (que é escrever aqui no blog) quantas vezes fossem necessárias para que a tristeza se esvaísse um tiquinho.
Nem sempre se esvaía a tristeza, mas risos eram arrancados de mim. Outras vezes a discussão azedava, enrugávamos a testa todos nós e escrevíamos. Criávamos e matávamos demônios. Azedávamos e açucarávamos esse Maracujá conforme nossas tristezas, alegrias e convicções.
O Maracujá era filosófico, literário, psicodélico, musical, gastronômico, polêmico, de declarações de amor, cinéfilo. Maracuja danado, polissêmico, inententível, composto por pessoas malucas, que se amam, que são tão iguais e tão diferentes. O Maracujá poderia se chamar também mixórdia, miscelândia, samba do criouolo doido ou simplesmente o blog de Nina, Jadson, Tiago e Wesley.

Mas, por um tempo, mesmo ainda acreditanto nisso tudo: embarguei. Vinha aqui e até tentava. Mas, não saía nada. Ou não saía como eu gostava: de coração, com vísceras, cortante, pulsante. Eu e minha cadeirinha de ver pôr-do-sol quando estou triste.

Aqui eu não ligava para as recomendações quanto às redes sociais: cuidado com o que você escreve, as pessoas estão te observando, elas fazem juízo de você. As pessoas fazem juízo umas das outras por tudo (inclusive eu): pelo que alguém ouve, pelo que alguém lê, pelo que fulano assiste, pelo que ciclano veste... Esse aqui é só mais um meio para que alguém que goste de enquadrar as pessoas por tipos, colocar tarjas de "descolado", "feliz", "triste", "inteligente", "contido", "introspectivo", "louco", etc.fazê-lo e ainda achar que o modo de escrever, as coisas escritas realmente cristalizam as pessoas. Como se não houvesse a possibilidade de mudanças, de encher o saco de tudo e mudar, de reler o que se escreveu e entender que nem sempre se é tão convicto assim das coisas, ou, ao contrário, compreender que não se muda mesmo: o que escrevi hoje é o que pensava há anos e será o que vou pensar daqui a muito tempo.
A gente muda e permanece. A gente é e não é. E a gente é tão complexo que não cabe muito em uma classificação qualquer, barata e apressada.
Eu me transformo a todo o momento. E com isso assusto as pessoas que me rodeiam e a mim mesma. E nem sempre isso é bom e nem sempre isso é ruim. Muitas vezes é mesmo é necessário.
A gente descobre, a gente inventa, a gente re-inventa. A gente muda de cidade, de religião, de corte de cabelo, de amor, de curso. Assim como a gente não deixa de amar a mesma pessoa, de lembrar as mesmas lembranças, de gostar do cabelo sempre curto ou sempre longo.
Por isso adoro quando Clarice diz "gênero não me pega mais".
Gênero nenhum me pega mais. Fato. E acho que não pega a nenhum de nós daqui do Maracujá.
E essa mesma mulher que fala sobre gênero não mais pegá-la, fala também, noutro texto, sobre termos bastante cuidado com o que mudamos em nós, especialmente sobre defeitos (é de se pasmar com isso!), ela nos diz que há defeitos que seguram toda uma coluna...
E complicação, paradoxos, comunicação tronxa nunca deixou de ser o nosso forte aqui, portanto...me sinto agora bem-vinda a recomeçar a escrever aqui. De coração, tronxamente, paradoxalmente, com defeitos seguradores de colunas em mim e com mudanças que nem eu mesma posso imaginar. Yudo junto num só Maracujá.

E o que me moveu a voltar a escrever aqui foi o fato de Jadson estar indo embora (mudando, portanto) para Brasília para fazer o mestrado dele.
O Maracujá continuará sendo nosso ponto de encontro nos encontros e desencontros de nossas vidas. Nas mudanças e nas mesmices. Até que cessemos de azedumes e doçuras e cambiemos para outras formas de nos (des)comunicarmos.

Assim: que venham doces e azedos, que venham demônios e anjos. Que voltemos a nos comunicar assim: trágica e comincamente como tem sido desde que estamos juntos nesse Maracujá.

E, por falar em mudanças e mesmices, recordo aqui o dia em que caminhava eu pelo centro da cidade e uma moça me chamou com dúvida:
- Nina?
Eu respondi com certeza de nunca tê-la visto:
-Sim, sou eu.
E ela disse em forma de pergunta de novo:
-Você é a filha de Dona Deise?
-Sim, sou.
-Eu fui sua babá! Você tinha uns dois ou três anos. Você continua com a mesma carinha: só cresceu!
E conversamos um bom trecho amigavelmente, ela recordando coisas que minha mãe me falava e eu não lembrava... Mas, bastou a senha "você é filha de Dona Deise" para que eu me achasse íntima daquela que cuidou de minha numa infância longíqua e esquecida.
Nos abraçamos e eu me emocionei ao deixá-la na rua Laranjeiras com uma parte de minha vida.

Dia desses, estou eu estudando na Bicen quando me chega um rapaz e me diz:
- Sabia que estudamos juntos?
Eu respondi:
- Não.
E ele disse:
- Fizemos datilografia informatizada no Senac em Propriá. Eu tinha uns dez anos, você deveria term uns quinze. Eu era aquele guri que dava choque em todo mundo...
Eu não recordava dele, nem de seus choques nem das coisas outras que ele me falou. Recordava que fiz esse curso e de apenas uma pessoa que ele falou que também frequentava as aulas.
Rimos de alguém em alguma época ter feito um curso desses e ri dele com dez anos de idade fazer o tal curso.

A memória me prega peças. Nem sempre está tão viva em mim. Mas, o que me assusta é que se me olho no espelho, me acho tão diferente...e as pessoas teimam em me reconhecer, em me falar que continuo a mesma...E um grande amigo meu, paradoxalmente, me olha e me diz sempre: "Nina, você está tão diferente!". Peço que ele me explique como, por que, em que...e ele só faz cara de agoniado e me deixa com minhas mudanças e minhas mesmices a não entender muito...
E um outro querido amigo me disse: "Destes seis anos que te conheço, acho que essa é a terceira Nina que vejo".

Eu mudo. Ainda que permaneça a mesma.
E assim o é com todo mundo, por incrível que pareça a cada um.
Dessa forma: para que taxar, classificar?

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

"A Descoberta do Mundo"

Uma vez eu disse sobre Clarice que ela é fonte que não seca. Disse isso a Nina me referindo a infinidade de trabalhos sobre a escritora num encontro de literatura da UFS. Mas agora repito que ela é fonte que não seca porque estou relendo suas obras. E essa releitura (no sentido literal da palavra e em todos os outros) é como escavação em caverna soterrada.

As estalactites estão ali, não as destruo, permanecem. Ver as próprias estalactites é de um privilégio imensurável. Vê-las e deixá-las lá. Aceitá-las. Aceito minhas estalactites. Aceito minhas profundezas. O que isso faz de mim?

Acho que posso descrever assim o ato de ler Clarice Lispector para mim: visito com lanterna e picareta uma caverna de indefinida dimensão. Escura. Que conheço e desconheço. Sem procurar feixes de luz, nem possíveis limites, lanho com a ferramenta cada estalactite que descubro. Não busco destruí-las. Não busco destruir o que se destruído me destrói. Elas são, definitivamente, o que há de mais belo e horrendo.

Tem sido uma fantástica experiência.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Citação

Ocorreu-me de repente que não é preciso ter ordem para viver. Não há padrão a seguir e nem há o próprio padrão: nasço.
(Água Viva, Clarice Lispector)

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Entre Clarice lispector e Lúcio Cardoso

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Depois da desafiadora e não menos perturbadora G.H. personagem a beira da loucura e da transcendência, criada pela excelente escritora brasileira Clarice Lispector, me detenho a leitura de um mineiro há muito na minha lista de livro desejados.

Adquerido pelo meu querido Tiago na tarde de ontem sobe minha influencia, três novelas de Lúcio Cardoso compiladas em um livro. “ Inácio, O Enfeitiçado e Baltazar” é o título do livro e são respectivamente os nomes das novelas editadas pela editora Civilização brasileira. Conhecido pela narrativa de mistério e suspense, o jornalista e escritor Lúcio Cardoso escreve tramas com personagens doentes , marginais, com densa carga erótica e sublimidades homoeróticas.

Ainda lendo a primeira novela, e gostando muito, indico para quem se interessar por uma literatura de sugestão e não poderia ser diferente de identificação, assim que acabar o livro conto sobre minhas impressões mais detidamente.

Ps: Lúcio Cardoso foi um dos grandes incentivadores de Clarice Lispector no inicio de sua carreira. Um Sinal?


Jt

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Passei para...



Dizer que estou com muitas saudades de uma Galega linda que perambula pelo mundo a fora. diante da saudade não me contive fui de encontro a descrição de seu universo através da escrita de Clarice Lispector. livro escolhido: "A PAIXÃO SEGUNDO G.H.", ABSOLUTO.

Como o universo de G.H. é estranho, como passar um dia ao seu lado é estranho e fascinante e dolorido e prazeroso e sexual e divino e epifânico e catartico e vivo e místico.


Saudades galega, volta, volta meu amor.....

Ninalcira beijo imenso e obrigado por existir, e viva a Clarice Lispector.

JT

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Eu digo amém. Amém? Amém.

Chego à altura de poder cair, escolho, estremeço e desisto, e, finalmente me votando à minha queda, despessoal, sem voz própria, finalmente sem mim - eis que tudo o que não tenho é que é meu. Desisto e quanto menos sou mais vivo, quanto mais perco o meu nome mais me chamam, minha única condição secreta é a minha condição, desisto e quanto mais ignoro a senha mais cumpro o segredo, quanto menos sei mais a doçura do abismo é o meu destino. E então eu adoro. (Clarice Lispector, trecho do Paixão segundo G.H.)

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Atenção ao sábado

Certa feita, conversando com uma amiga muito querida, ela me falava sobre manias, sobre idiossincrasias...Falou dos sábados... e eu me lembrei desse texto de Clarice. Estávamos "altas" e não o encontrei na hora...mas, agora, vai o texto, viu?

"Acho que sábado é a rosa da semana; sábado de tarde a casa é feita de cortinas ao vento, e alguém despeja um balde de água no terraço; sábado ao vento é a rosa da semana; sábado de manhã, a abelha no quintal, e o vento: uma picada, o rosto inchado, sangue e mel, aguilhão em mim perdido: outras abelhas farejarão e no outro sábado de manhã vou ver se o quintal vai estar cheio de abelhas.
No sábado é que as formigas subiam pela pedra.

Foi num sábado que vi um homem sentado na sombra da calçada comendo de uma cuia de carne-seca e pirão; nós já tínhamos tomado banho.

De tarde a campainha inaugurava ao vento a matinê de cinema: ao vento sábado era a rosa de nossa semana.

Se chovia só eu sabia que era sábado; uma rosa molhada, não é?

No Rio de Janeiro, quando se pensa que a semana vai morrer, com grande esforço metálico a semana se abre em rosa: o carro freia de súbito e, antes do vento espantado poder recomeçar, vejo que é sábado de tarde.

Tem sido sábado, mas já não me perguntam mais.

Mas já peguei as minhas coisas e fui para domingo de manhã. 

Domingo de manhã também é a rosa da semana. 

Não é propriamente rosa que eu quero dizer".

O texto está no livro "Para não esquecer".

domingo, 5 de setembro de 2010

Ponte estranha




Não saber pensar claramente é não saber expressar-se claramente. Sabem dessa minha desarmonia mental, não sabem?

“Eu tenho à medida que designo – e este é o esplendor de se ter uma linguagem. Mas eu tenho muito mais à medida que não consigo designar. A realidade é a matéria prima, a linguagem é o modo como vou buscá-la – e como não acho. Mas é do buscar e não achar que nasce o que eu não conhecia, e que instantaneamente reconheço. A linguagem é o meu esforço humano. Por destino tenho que ir buscar e por destino volto com as mãos vazias. Mas – volto com o indizível.”
(Clarice Lispector, A Paixão Segundo G.H.).

Princípio: Pensamento: Parto disso: Tudo parte de mim, transborda e corre no mundo. E saio eu correndo, segurando esse tudo como coisa que escapa entre os dedos, entre os dentes. Isso que digo basta. Mas o que fica?. Eis o “fracasso de minha linguagem”. O indizível aparece. Culpa da minha burrice? Do Oco cheio de coisas que se movem como em quadro de pintura abstrata, que eu olho e leio e rio. Mas eu rio sem ironia. Esse tudo que nada diz me diz demais, sabem? E meu problema é: eu não sei dizer. Capto uma aeronave na pintura, um menino segurando pipa, uma banheira de cabeça para baixo entornando mel.

Clarice me diz coisas: “E é inútil procurar encurtar caminho e querer começar já sabendo que a voz diz pouco, já começando por ser despessoal” Não é fácil ler isso assim, como quem não quer nada, desejando sabe Deus o que. Ela me diz coisas: “A via-crúcis não é um descaminho, é a passagem única, não se chega senão através dela e com ela.” Minha via-crúcis “aqui, aqui, aqui” desde Virgínia à Clarice. De um tudo, entrecortando um vasto nada, desembocando em novo tudo perpetuamente indizível. A via-crúcis perpétua, Clarice? Nina? Jadson? Meus amigos aos quais nada digo claramente, ao menos. “A insistência é o nosso esforço, a desistência é o prêmio”. Minha crucificação? É esse o prêmio, a crucificação? A revelação da desistência de que fala? E se alguém em um passeio, por exemplo, captar a mim também, como penso que te captei? Inundará o mundo com folhas de papel, espaços virtuais e não saberá dizer o que nunca saberei dizer: a resposta? Estou falando de linguagem? Do que eu estou falando? É assim, você diz. Eu entendo: você diz isso. É assim? Sempre pensei e creio que continuarei pensando que você fala do mundo.

O tudo que se materializa numa única palavra, a que não é dita. Eu gosto disso, sabe Nina? Vem o amor, depois a palavra, depois o indizível. O indizível nessa trajetória. Meu Deus, o indizível é a trajetória! Não. Clarice diz “a trajetória somos nós mesmos.” Uso aqui a lógica? Então, o indizível sou Eu. Forço aqui o erudito? Aqui, nesse ponto, eu fico triste. A tristeza é porque não sou erudito. Eu sou o indizível e a trajetória. A essência humana? É a essência humana? O indizível, a trajetória. Agora sem esse elemento de conexão: e. Um palavra sobreposta à outra. Uma palavra. Eu. Humano. Jadson, pessoa que eu amo, isso sai do eu para o universal? A filosofia faz isso? O “motor” está dentro? E disso eu me reinvento? Ou me redescubro? É ruptura ou conexão? Nada é claro para mim. Resisto porque penso que algo vai se revelar. Espero na espreita temendo a cruz e as estacas. Tive agora uma sensação estranha, uma sensação nova de oxigênio, combustível do fogo. O fogo se alastra engolindo o ar e as coisas, tudo depois se traduz em negro e destruição. Vejo que sou diferente do fogo, me alastro, me retraio, me alastro, mas ao contrário, me destruo, a cor é indefinível. Terei que aceitar e isso dói. Poderia ter passado a vida sem ler o indizível, podendo dizê-lo então em paz, apontando para uma ponte e dizendo: eis uma travessia! Mas eu sou onde tudo se encontra. E aqui, nesse ponto, eu estou feliz. Mas essa revelação é outra que não a desistência de que fala Clarice. Essa é a revelação posterior à minha crucificação. É o meu paraíso. Agora, creio que o universal retornou e me sinto tão pleno. Retorno parece-me, de uma viagem interplanetária. Não (respeito o pensamento anterior, mas somente respeito). O centro do meu corpo, entre minhas víceras, a semente do universo.


quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Toda leitura é uma cicatriz.

Toda leitura é uma cicatriz.
Desde antes de ontem que ponho o dedo naquilo que estava quase a sarar.
Reli A obescena senhora D,  de Hilda Hilst. Reli Quero minha mãe, de Adélia Prado. E estou carregando comigo um livro muito marcado (todo riscado, como costumo deizer: um livro vivido) e que me cicatrizou uns muitos sentires: Água viva, de Clarice Lispector.

Brinquei com Jadson que estava meio suicida e ele me salvou ontem me levando para a rua.
Hoje, voltei ávida por essas leituras-cicatrizes de mim.

Por que?

Tô lendo a trabalho.
Coadunando idéias. Achando como são fortes as presenças dos bichos na escritura das três moças.
As três-moças-das-águas-de-meus-sonhos.

Será que não posso mesmo enxergar a questão de uma zoopoética de Deus nesses bichos dessas moças?

Buscando. Buscando. Cortando-me. Cicatrizando-me.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Memórias

Lendo os últimos textos dos membros mais atuantes deste blog, me deu uma vontade de relembrar coisas, mais acho que tenho medo, enquanto isso anuncio que Li "Agua viva" de Clarice Lispector, presente de uns amiguinhos eróticos de uma sentada só, sentei e li e nossa fui tomado de com força, sabe aquilo que faz voce parar e respirar profundamente, eu Deus, meu "it" E AGORA?

Gente depois eu falo mais....

beijos

Jadson

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Epifania, Literatura, Besteira e Gargalhada - quase uma paródia de um texto espetacular de Tiago esse título, não?


Desde os doze anos de idade eu fui fisgada pela escritura de Clarice Lispector. Nada intelectual. A coisa se deu da maneira mais táctil e sensível possível. Deparei-me com Água Viva e o li no quintal de casa. Ao terminar o livro eu sabia que um eu feminino escrevia para um tu masculino. Que esse eu era pintora e agora lidava com as palavras e que sentia o domingo parecido como eu sentia.
Eram as impressões de uma menina de doze anos.
Não larguei mais Clarice e as relações foram se dando sempre de maneira mais complexa. Até que decidi fazer o curso de Letras.
A relação com a obra da minha então escritora preferida não mudou. Continuava amorosa. Ela não era meu objeto de estudo e quando o foi, não me afastei. Pelo contrário, a aproximação era sempre e cada vez mais significativa.
Por esse motivo, deixei-a guardada só para mim e estudo hoje uma outra escritora que me emociona muito especialmente com a escritura do livro que se fez objeto do projeto de Mestrado. Ela é Alina Paim e o lviro é A sétima vez.
Acho que não consigo estudar de maneira mecânica. Para mim se faz necessário haver paixão.
A obra de Clarice Lispector e a de Alina Paim são plenas de construções linguísticas próprias, reforçadas por uma estrutura sintática peculiar, capaz de, simultaneamente, encantar e envolver o leitor em um universo linguístico e poético renovando conceitos de leitura.
Sabia eu que as obras de Lispector geralmente focam a epifania, traduzida em momentos de revelação, em que determinado personagem se defronta com a verdade.
Aliás, esse foi o tema da monografia que escrevi para concluir o terceiro período do curso (estranho, não é? Mas, foi isso mesmo: à época, não rolava TCC no curso de Letras aqui na UFS e fizemos monografia como uma tipologia textual na disciplina Produção de texto III).
Não me envergonho do que escrevi, uma vez que eu era semi-caloura à época.
A vida continuou. Os períodos foram se sucedendo. Concluí o curso e hoje estudo essa outra autora, sob um outro viés: o viés da memória.
Daí que de repente pensei: não é que há e muito de epifania nesse A sétima vez?
Também Teodoro (personagem principal do livro) é exposto a um acontecimento, que ele denomina de fenômeno, que muda sua vida, que o faz conhecer um tipo de verdade. Apesar de que todo seu envolvimento com esse tal fenômeno está ligado á duras questões como a Ditadura Militar brasileira, etc.
Não vou desenvolver à exaustão esse pensamento. Talvez ainda o faça por gosto para apresentar algum trabalho.
Agora, só fico mesmo feliz com o descortinar do pensamento à caminho da padaria.
Hoje já vivi ápices de sentires (vulgo raiva mesmo). Agora, me diverti para caramba com uma última espiadela no que mais me chateou e ri. Ri. Ri muito e tanto, que lembrei-me dessa denominação: epifania.
O descortinar de uma verdade. Um momento que transforma. Não aplica-se ao que citei agora que me fez rir, mas sim às duas escritoras.
E, assim, fico feliz de verdade.
Termino o dia às gargalhadas com a besteira que me fez rir de verdade e à bessa e feliz em ter percebido essa ligação entre duas grandes escritoras que estão comigo sempre.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Para mudar de assunto (estou com sono)


Ainda bem que eu consegui assistir a aula hoje. Juro que me vi emaranhada, grudada nesse espaço aqui e cheguei atrasada à aula por conta das discussões que rolaram. Quando me vi atrasada, no terminal centro, pensei: "Que loucura! Como é que fico pregada, na casa de outras pessoas, porque eu estava na casa de minha cunhada, pois não tenho Internet em casa, a escrever no blog e a aula rolando e eu faltando...". Sentimento de culpa a mil...
Consegui ir. A aula foi boa. Mas, eu estava tomada por outras questões. A questão de gênero textual. Lembrava-me da frase de Clarice Lispector: "Inútil querer me classificar, eu simplesmente escapulo não deixando. Gênero não me pega mais".

Eu sempre senti que blog era algo muito público e não concordava com a idéia de compará-lo a um diário. Pois que sempre tive meus diários só para mim. E quando guria, se alguém ameaçava pegar meu diário, eu temia (meio como a música de Raul "Para Nóia). E depois, tem a questão de escrever sabendo que alguém (que a gente conheça ou não conheça) vai ler. Até onde a ficção? (ô conversa mais velha...mas, rolava ainda isso em minha cabecinha).
Daí, sem explicação alguma, criei o blog. Escrevi escondidamente. Parei. Até Jadão falar na possibilidade de fazermos um zine, um espaço onde publicaríamos "coisinhas" eu, ele e Tiago. Lembrei-me desse Maracujá e perguntei o que ele achava de escrevermos juntos num blog e enviei convite pros dois.

E entendi que aqui, a gente escreve o que pensa, elabora, não-elabora, brinca, finge, não-finge. Tenta debater. Debate. Fala de coisas que acha legal. Etc. Divide. Se expõe. E a questão da exposição é que é. Mas, a gente vai aprendendo. Aqui acaba sendo um espaço como outro qualquer. Pode ser simples para muitos, mas para mim, desacostumada com algumas tecnologias: não é.

Mas, o melhor de tudo, foi ter entrado nessa com os amigos. São muitas as vozes. E isso funciona, para mim, como um lugar público-privado (existe isso?). Jamais será meu diário, mesmo que eu coloque coisas que me aconteçam (ficcionalizando-as ou não). Jamais será um espaço para idéias fechadas, pois se existe lugar para comentários, existe espaço para discussão, debate e, portanto, mudanças, construção e desconstrução de idéias.
Levando-se em consideração que "jamais" é um termo deveras forte. Relativizo-o aqui.
Mas, o bom é que aqui dá para viver um pouco o lance de "gênero não me pega mais". Porque pode-se ser cronista, poeta, resenhista, contista, biógrafo, romancista, crítico, nada...Pode-se escrever sobre inúmeros temas, de inúmeras maneiras. Não há amarras. Isso é bom. Pode-se postar um link de um vídeo que a gente achou legal, pode-se postar esse vídeo, pode-se falar desse vídeo sem postá-lo e sem colocar link algum...
Pode-se escapulir de gêneros, de formas, de moldes.
Para mim, isso é bom. E é novo.
Parei de olhar de soslaio para blog's (eu não sei escrever plural dessa palavra). E se entrei aqui de soslaio, já estou um pouco mais à vontade.
Boa experiência tem sido até agora.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Maracujá com açúcar

Preciso escrever para acalmar.
Disse Clarice Lispector que "escrever salva".
Escrever é o meu "maracujá com açúcar".
E entro aqui desconfiada de tudo, do chão que piso. É de soslaio que escrevo essa primeira postagem.
E de soslaio todas as outras, eu sei.