quinta-feira, 23 de dezembro de 2010
Uma história comum
quarta-feira, 22 de dezembro de 2010
Descrição do fogo II
Maria Bethânia - Sob Medida
Descrição do fogo I
Solidão
o silêncio abre os seus panos escuros
e as coisas escorrem
por óleo frio e espesso
Esta deveria ser a hora
em que me recolheria
como um poente
no bater do teu peito
mas a solidão
entra pelos meus vidros
e nas suas enlutadas mãos
solto o meu delírio
É então que surges
com teus passos de menina
os teus sonhos arrumados
como duas tranças nas tuas costas
guiando-me por corredores infinitos
e regressando aos espelhos
onde a vida te encarou
Mas os ruídos da noite
trazem a sua esponja silenciosa
e sem luz e sem tinta
o meu sonho resigna
Longe
os homens afundam-se
com o caju que fermenta
e a onda da madrugada
demora-se de encontro
às rochas do tempo
Mia Couto, in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"
...e a onda da madrugada demora-se de encontro às rochas.
Precisa mais alguma palavra?
terça-feira, 21 de dezembro de 2010
Como estrelas na Terra...

Acho no mínimo engraçado como usamos cada um a sua maneira, esse nosso ponto REAL de encontro. É verdade que pouco comento sobre meus dias e sensações de um modo mais explícito. Mas é claro que qualquer palavra que aqui escrevo reverbera EXATAMENTE o que sinto ainda que de um modo não-dito. Dentre muitas coisas que nesse mundo me entristece está esse meu sentir-para-dentro que se mostra para os insensíveis como coisa-vazia. Mas bem sei que para os sensíveis, ou melhor, para os que povoam esse espaço aqui, a coisa-não-dita está esganiçada em cada palavra.
Iniciei falando de sensibilidade porque nesse fim de semana aconteceu o que está cada vez mais raro. Me emocionei explicitamente, mostrei as lágrimas. Estive óbvio. Jadson, Rafael e eu assistimos ao filme “Taare Zameen Par - Every Child is Special”, ou para melhor entendimento em português: “Como estrelas na Terra - toda criança é especial” dirigido, estrelado e produzido por Aamir Khan. O filme conta a história de um menino disléxico incompreendido que os pais obrigam a estudar em um colégio interno por não demonstrar as habilidades comuns a “qualquer criança”, desprezando nele todo o potencial criativo-genial.
As cenas são acompanhadas por uma das trilhas sonoras mais belas que ouvi. Aliás, não pareciam distintas música e imagem. Pareciam uma só coisa. Me emocionei como há muito tempo não havia me emocionado com um filme. O último que me fez chorar fora “A cor púrpura”. Mas desta vez chorei durante quase todo o filme ao ponto de meus olhos doerem. Não sei dizer se é um filme de criança feito pra adulto, ou se o contrário porque na linguagem há, ao mesmo tempo, pureza e denúncia. E há, SOBRETUDO, CORES. HÁ CORES. HÁ SOL E DIAS CLAROS. HÁ VIDA E ESPERANÇA EXPLICITADAS E, MUITO BEM DITAS.
Recomendo a todos.
É revigorante.
Resignação
Espero
Não sei o que
Espero
Que seja bom
Que seja alegre
Que tenha cor
E que seja azul
Que forte seja
Mas que seja bom
Que seja alegre
Que eu espere
Que virá