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quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Uma história comum


Durante o dia, sob o sol e o barulho anônimo de pessoas outras pelas ruas, nos transportes coletivos, no trânsito, nos escritórios, nas lanchonetes e em praças e por todos os lugares da cidade, ela vivia muito bem. Disfarçava seus medos e sua solidão em pequenos cuidados e era, assim, uma pessoa atenta e prática.
À noite, trancada em seu minúsculo apartamento, sentia o peso de tudo aquilo que ela esquecera sob o sol. A lua, fosse minguante ou cheia a enlouquecer também a sua cabeça, a lua trazia o mais fundo dela para a pele. Ali, na beira de si, ela não sabia o que fazer com ela mesma.
Ouvia música, lia, tomava vinho, telefonava. Mas, a lua estava ali, ameaçadora e espelho. O espelho do de dentro.
Masturbava-se e se sentia triste quando deixava a porta entreaberta e o zelador, pontual, vinha a espreitar-lhe. Entrestecia de uma tristeza estranha porque fora ela quem começara o jogo exibicionista.
No outro dia, pela manhã, olhava-o e nada sentia: vazia. Era como se ela fosse só o líquido gozo e ele a tivesse sugado para dentro dele com o olhar apenas. Ele a bebera de longe, sugara o seu mel e o seu leite. A ferida sarava no quente da manhã, no quente do dia. O sol. E ciclicamente a lua. Sol. Lua. Solidão. O mel. A ferida. A repetição e o fim. Em sua lápide, palavras que nada diziam sobre ela, verdadeiramente.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Descrição do fogo II

Sugara-lhe a última gota de mel. Desvalida, sem cor, molemente como que sem vida ficou ela aberta em flor, estranhamente feliz. O beija-flor voou, satisfeito, feliz também, com gosto de cor e de mel num bico que por isso é quase sagrado. A flor sabia que de alguma maneira, ainda que ficando, ia com ele.

sábado, 16 de outubro de 2010

Na natureza selvagem?


No último fim de semana e feriado, fui arrastado para uma idílica paisagem natural: Chapada Diamantina. Lá fiquei hospedado em um acampamento de nome Lumiar em uma pequena cidade histórica de nome Lenções, a bela cidadezinha é toda desenvolvida para o comércio turístico. Bem, o efeito para quem visita é de fato agradável, mas sabemos aqui que existem implicações nesta subsunção desintegradora do capital, ainda mais que depois de percorrer algumas trilhas, me banhar em deliciosos rios e cachoeiras, visitar grutas e visualizar uma paisagem alucinante, um acaso me fez refletir.
Procurando um local para fazer uma curva, o ônibus que nos guiava percorreu uns 30 minutos para conseguir fazer a manobra, mas ironicamente, foi num lixão, no meio de uma mata a beira da estrada, que o motorista efetuou a tal curva e lá uma quantidade insuportável de moscas invadiu o ônibus, foi apenas um pequeno aviso da natureza. Nossa! fiquei impressionado era o óbvio precisando ser dito.
A última trilha foi a mais cansativa, caminhamos dois mil metros até chegar ao topo de um morro chamado de Pai Inácio. Se bem que não conseguir chegar até o topo do topo, fiquei um poco frustado e mesmo não tendo visto um por do sol IRADO, ainda assim a experiencia foi mágica.

Ainda estou a elaborar o que ficou nesta experiencia que marcou....

beijos verdes.

J

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

O trem azul

Sabe aquela música do Lô Borges, o Trem azul?
Não sai da minha cabeça.

Você na cabeça
Um sol na cabeça...

Uma sensação tão boa. De lembrança boa. Ouvi essa música no domingo de manhã. Acordando na Ribeira. Com a promessa de subir e descer e encontrar cachoreiras. Trilha.
E a promessa se cumpriu. E o dia foi tão bom.

O caminho. A paisagem. A volta para casa. A diamba. A preparação do almoço. Todos juntos. Cortando tomates, o cheiro de alho e óleo. Cheiro de mãe. De mãe cuidando da gente.

A larica. A espera para a lasanha ficar pronta. A fome matada e morrida.

A idéia de conexão com a natureza.

Música. Risadas.

Depois, imagem e ação. No limite. Com um timer. E a demora para a gente compreender. Os acertos das regras. Os grupos. A cumplicidade na hora da merda. Os pinos quebrados e o silêncio amigo.

As mímicas. Os desenhos. A agonia. Dois contra três. A parcimônia de um a angústia de nós outros todos.

A vitória do time deles.

Acontece. Os três venceram e todos nós ganhamos um dia feliz, leve, divertido.

A noite, lamentavelmente: peidamos.

Rimos. E já era força o que fazíamos. Para sermos mais íntimos, mais meninos, mais pequenos.

E fomos. E somos.

Somos pequenos, pequenos.

Tudo isso passa. Passará.

Aproveitemos.

sábado, 10 de julho de 2010

A natureza de um Deus desconhecido



Comprei o livro do escritor americano John Steinbeck alguns meses atrás quando em uma cidade do sudeste do país em um dos sebos que visitei. Um livro de bolso e já bem velho, baratinho. Sempre desejei ler a literatura de Steinbeck, sempre achei esse nome poderoso, tinha algo nele que me fascinava, já vi dois excelentes filmes adaptados de suas obras, o que me deixava mais curioso. Nesses dias resolvi ler “A um Deus desconhecido” e não me decepcionei. O livro me arrastou pra dentro dele com uma força tamanha que só consegui largar dele quando acabei de ler todo.
O livro conta a saga de um fazendeiro, Joseph, que resolve se instalar no oeste americano, em um vale de terras produtivas e desabitada, ele começa a desenvolver uma relação mística com a natureza e ao mesmo tempo forjar uma personalidade forte, austera e serena, passa a morar com os irmãos e se casa com uma culta professora de uma cidadezinha próxima. Antes, porém, constrói uma casa embaixo de um frondoso carvalho e passa acreditar que a árvore simboliza a vida de seu pai já morto. Ele cultiva em toda a terra, prospera e tem um filho, até que a seca toma conta da região por um prolongado tempo fazendo com que todos se mudem do vale, mas ele persiste continua sozinho na terra esperando as chuvas.
Não vou fazer aqui uma análise filosófica ou mesmo literária do livro, mas apenas dizer que o sentimento envolto na relação com o livro foi muito forte, capaz de me absolver tanto, tanto que nem consigo dizer direito, mas me deu uma vontade imensa de ir embora pro mato,pro campo,viver embaixo de uma árvore e plantar legumes, tomar banho de rio, olhar o horizonte no entardecer e coisas assim.

Beijos

Jadson