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quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Uma história comum


Durante o dia, sob o sol e o barulho anônimo de pessoas outras pelas ruas, nos transportes coletivos, no trânsito, nos escritórios, nas lanchonetes e em praças e por todos os lugares da cidade, ela vivia muito bem. Disfarçava seus medos e sua solidão em pequenos cuidados e era, assim, uma pessoa atenta e prática.
À noite, trancada em seu minúsculo apartamento, sentia o peso de tudo aquilo que ela esquecera sob o sol. A lua, fosse minguante ou cheia a enlouquecer também a sua cabeça, a lua trazia o mais fundo dela para a pele. Ali, na beira de si, ela não sabia o que fazer com ela mesma.
Ouvia música, lia, tomava vinho, telefonava. Mas, a lua estava ali, ameaçadora e espelho. O espelho do de dentro.
Masturbava-se e se sentia triste quando deixava a porta entreaberta e o zelador, pontual, vinha a espreitar-lhe. Entrestecia de uma tristeza estranha porque fora ela quem começara o jogo exibicionista.
No outro dia, pela manhã, olhava-o e nada sentia: vazia. Era como se ela fosse só o líquido gozo e ele a tivesse sugado para dentro dele com o olhar apenas. Ele a bebera de longe, sugara o seu mel e o seu leite. A ferida sarava no quente da manhã, no quente do dia. O sol. E ciclicamente a lua. Sol. Lua. Solidão. O mel. A ferida. A repetição e o fim. Em sua lápide, palavras que nada diziam sobre ela, verdadeiramente.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Da dificuldade da maternidade

Um motivo de grande confusão para alguns homens: a barra da saia da mãe.
Quantos deles confundem amor com obrigações (não só domésticas, mas sejam quais forem)?
Quantos deles acham que uma mãe por ser mãe deixa de ser mulher e quantos ainda não compreendem que uma mulher por ser mulher nem sempre tem de ser mãe?
Daí minha dificuldade (entre tantas e tão variadas) em relação à maternidade: se eu parisse um guri, um "menino-home"como se diz na minha terra tão louvadora do sexo masculino, o que eu faria dele? O que permitiria (e o verbo é proposital, visto que muitas mães permitem mesmo) que ele fizesse de mim?
Se eu aplicasse tudo o que eu entendo como passível de fazê-lo üm filho de cuca legal" será que ele não sofriria muito nesse mundo configurado tal como está?
E se eu reproduzisse os pequenos vícios naturalizados que configuram o grande, o imenso e aderente (e muitas vezes disfarçado ou mesmo invisível) machismo do mundo só para salvaguardar um provável bem-estar do guri no mundo (do tipo: ele nãos eria o inadaptado, o extraterrestre)?
Não sou daquelas que acreditam em meio termo. Por isso eu me acredito "o exagero".
Não acreditando eu em meios termos só posso conceber que ou se é machista ou não se é machista.
E eu não queria parir e criar (educar, fazer) um machista. Nem enquanto mãe, nem enquanto mulher.
Por isso, venho construindo a idéia de que o mais correto sou eu não parir.
Além, claro de concordar com Machado de Assis em Brás Cubas: para quê vou perpetuar uma raça como a dos homens, para que deixar sementes?

Mesmo sendo a contradição em pessoa e pensando que seria muito lindo e singular parir, criar, dividir um pouco de minha vida com uma outra criatura. Gestada e parida por mim ou (o que muitas vezes pensei) escolhida por mim, adotada, irmanada na alma.

De qualquer forma: mais medo de criar (educar, fazer, contribuir) uma pessoa nada boa do que de parir ou de errar numa escolha...