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sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Tudo pode dar certo: feliz ano-novo!


Qual o balanço do ano-velho? O que você pode dizer que aprendeu com o ano que vai acabando? Eu responderia: que não aprendo nunca! Essa é a lição: eu nunca aprendo nada com ano nenhum. E lembrava fortemente do filme de Woody Allen, o Tudo pode dar certo. A minha vida, muitas vezes, é aquilo: enquanto pulo da janela para me suicidar por ter sido abandonada por um amor, caio em cima de uma linda e interessante mulher, que por sinal é a da minha vida naquele momento. E todos juntos comemoramos o ano-novo que surge...Mas, eu estou ali: estranhamente conversando com quem não existe, é invisível, o extra-quadro, o possível público de uma encenação que é a vida de todos nós...quem sabe é com quem já foi e continua ali, perto de mim, invisível e presente sempre? Sei lá de nada! Só sei que com bom humor, nos dias de cão, com hipocondrias e com bebedeiras ou de cara limpa, seja como for: Tudo pode dar certo, incrivelmente.






terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Fragmentos

Cantada matinal: "Seu mundo caiu? Corre para o meu que ainda está de pé!".

Um pensamento: "Se minha casa pegar fogo, eu salvo o fogo".

Um caminho: intinerância. O absurdo e a graça num cheiro de goiaba.

O livro de Gabriel Garcia Marquez em minhas mãos e o pensamento voando em um avião a jato só para falar oi.

Os livros. Em minha vida, sempre os livros. E fluxo-floema por vinte contos em minha frente. Ousado. Verde e branco. Antigo e novo.
Eu sem nenhum puto. Lembrando: "Liberdade é pouco: o que eu desejo ainda não tem nome".

"A sua camisa é de um verde próximo ao da loucura". Sussurrado no ouvido. Bar cheio. Duas. Ela me disse assim: na lata.

Desde que me recebeu, a cidade d'Oxum: muita água, claro. Mas, uma palavra insite: FOGO...

sábado, 20 de novembro de 2010

O maior da vida


Ela queria o maior. Mas, não sabia dizer, expressar. Chegaria na mercearia, na esquina, e pediria, com sorriso no rosto:
- Por gentileza, quero o maior da vida, sim?
Perguntariam-lhe o que é que ela queria maior? Pão? Caixa de sabão em pó? Maior tempo para pensar a resposta da promoção de creme dental?
Talvez pensasse em reformular a pergunta ou mesmo o público para a indagação.
Procuraria um psicólogo, assim. Mas, não. Não queria voltar à infância e à convivência com seus pais. Não queria rememorar nada antigo. Era-lhe preferível o futuro. Se pensara em movimento, era o de projeção para adiante.
Queria e com urgência era o maior da vida. Isso sim.
O maior da vida era não-verbalizável. Não-compreensível. Não-captável. O maior da vida era um território não-habitado como a casa engraçada do poeta.
Por saber dessa impossibilidade-possível, acalmou-se. Acendeu um cigarro, uma vez que não fumava. Serviu-se de uma bebida qualquer só para sentir por dentro a vertigem de viver.
Abriu a porta e saiu.
Na praça, fez o caminho de Ana. A do conto que lera. Encontrou o mesmo verde do jardim. O cheiro doce da Natureza também revolveu-lhe o estômago.
Comprou ovos. Tomou um ônibus. Viu o mesmo cego a mascar chicletes. Derrubou a cesta com ovos, atônita como a outra com o Tempo, com o Cego e a Cegueira.
Tocou o visgo da clara e da gema. De maneira igual, não descobriu nada, mas sentiu mudar-lhe a vida por completo.
Voltou para o apartamento. Encontrou marido, jornal, meias pela sala, crianças famintas, a chorar-lhe saudades e temores de abandono já doído nos pequerruchos coraçõezitos.
Sorriu e sentiu-se uma estrela. Como a da mesma autora.
Passou pelo marido esticado na poltrona, acariciou-lhe o que restava de cabelos naquela cabeça antiga e costumeira e falou:
- Amanhã, mudo de autora, para a distração.
E sentiu o eco de sua voz, como se estivesse sozinha e só.