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quarta-feira, 30 de março de 2011

Escrevinhanças

O ato de criar um texto todo meu, porém inteiramente fundamentado no pensamento de outrem não é nada fácil e, eu diria ainda, é até dolorido.
Há os mais sutis travamentos da linguagem na hora da escrita (onde eu falo? Onde o outro? Onde o fundamento (que é de autoridade, sempre) do outro?).
Sim, eu compartilho das idéias desses pensadores. E, às vezes, caminho até livre ao lado deles (que na verdade estão dentro de mim, entranhados, pois que os leio a todos), mas a escrita acadêmica não me permite a liberdade diária da qual gozo nos momentos de leitura!
Então eu me perco entre as citações diretas e indiretas, entre as formas todas que a linguagem possa me oferecer (ah! E elas são muitas!).
Escrever assim, vejo, será uma aprendizagem. Mas, creio: será útil, será feliz.
Encontrarei um lugar nesse mundaréu todo.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Postaria ontem, mas sem net, postei hoje: anacrônico?

Assisti, há pouco, ao filme Nome Próprio. Não vou falar do filme, nem se ele é bom, se ele é ruim, nem de seus planos, nem de sua ambientação, nem fazer uma análise de imagem e som. Muito menos vou falar da sua história. Nem vou pagar pau para o filme, nem para a personagem, nem para a direção. Nem pagar pau nem falar mal.
Mencionei o filme só para começar a escrever mesmo. Sem motivo. Sem conexão qualquer. Mas, também não quero entendimentos nem desentendimentos. Quero só escrever isso e postar. Pelo simples fato de que eu fiz uma conta para ter um blog. e porque ter um blog se constitui em mais ou menos isso: escrever e postar coisas. Só isso. Se eu não quiser escrever, não escrevo. E se eu não quiser publicar, não publico. Simples assim.
Talvez guarde na lembrança recente de que a personagem tinha um blog, se expunha. Sua página não possuía espaço para comentários e, por esse motivo, ela designou sua página de "não interativa". Talvez esse seja o motivo para eu ter começado a escrever falando sobre o tal filme.
Aqui tem espaço para comentários e, por esse motivo, comenta-se e, dialoga-se, interage-se. Além de que aqui é um espaço onde convidei mais pessoas e ele acabou muitas vezes sendo várias coisas ao mesmo tempo. Certa vez louvei essa não-classificação (em termos de gênero) dos blog's. Em espaços como esses pode-se escrever e publicar e trocar e oferecer e dividir crônicas, contos, poesias, diários, ficções, resenhas, desenhos, músicas, misturebas das maiores e das mais misturadas.
E, para a gente do maracujá, funciona até mesmo como um jeito de saber notícias uns dos outros. Quando um viaja, quando se mete em muitos trabalhos dos cursos e de seus trabalhos mesmo, ou seja qual for o motivo para sumirmos. O fato é: as vezes sumimos, e o blog também funciona como o lugar onde dizemos que estamos com saudades, que queremos notícias, desejamos saber da pessoa, etc.
Cada blog deve ter a sua especificidade e o da gente é bastante específico. Mesmo nesse emaranhado todo.
Pessoas entram, pessoas saem como colaboradores. E a gente, serelepe e incansavelmente, posta coisas e mais coisas. E muitas vezes, deixamos de postar por tempos a fio: ou por falta de acesso à Internet ou porque não queremos mesmo ou porque temos mais o que fazer. Horas é um meio de comunicação, outras de não-comunicação, ou como já colocou-se certa vez nos marcadores, de comunicabilidade incomunicável ou de incomunicabilidade comunicável.
Memórias, desejos, ficções, diários, sensações, desabafos, opiniões, divisões (de vídeos, de livros, de filmes, de casos e de causos, de quadros, de desenhos, de músicas), construções, resenhas de livros, de filmes. Misturebas.
E, aqui, diferente da página da garota do filme, tem espaço para comentário, inclusive espaço sem mediação alguma, ou seja, qualquer um que queira pode vir e comentar o que queiramos e tenhamos postado.
Certa vez quis instalar um medidor de visitas e até um desses lances (programas) que a gente fica sabendo das estatísticas: quem acessou e quando e por quanto tempo; qual a faixa etária, qual a região onde moram as pessoas que entram no blog, etc. Desisti. Primeiro, porque me deu trabalho, segundo, porque não tinha deliberado com os outros, terceiro, porque achei bobice: nunca compreendi minha intenção em ter um blog e muito menos entenderia um tipo de monitoração a esse blog, pra que me serviriam estatísticas, números? A mim, falo. Outros blogueiros, não os julgo, nem é isso o que estou escrevendo, qualquer tipo de agressão ou crítica. Só não me interessou saber. E, também, as vezes que tive contato com páginas que tentavam me explicar o porquê de ter um tipo de programinha destes, sempre falavam em melhorar o que postávamos para atingir mais público, para agradar as pessoas, para sermos lidos. Isso me desinteressou deveras. O clima era de competição e eu, mesmo sem saber para que tinha feito um blog, sabia que não era para competir ou para ser muito lido ou seja lá o que for nesse sentido. É bom eu ressaltar que não estou criticando quem faça uso de coisas assim. Um dia posso vir a usar neste ou noutro blog, sei lá. É só para frisar que não estou escrevendo, agora, nada agressivo nem peremptório, nem para a posteridade ad infinitum, salve, salve...
Como já havia falado noutras ocasiões, não sou muito ligada nessas coisas de Internet, entrei aqui de soslaio (como tem na primeira postagem) e começou a fazer mais sentido isso aqui para mim quando chamei meus amigos para participarem junto comigo disso que é para mim a estranheza boa de escrever assim. Uns chamei outros pediram para escrever. E assim tem sido. Uma mistureba.
E as fronteiras: público? privado? verdade? ficção? isolado? conjunto? continuam assim: com interrogações no final.
Aqui não há uma linha condutora, uma coerência de forma nem mesmo de conteúdo. É fluxo, é como se fosse a vida acontecendo, sem forma. Inesperada.
O interessante é que eu, sempre ou, para ser menos drástica, vez ou outra, fico me indagando quanto a escrever num blog. Por ora. Pois sei que posso deixar de escrever a qualquer momento. Ou nunca deixar de fazê-lo. Como tudo o que acontece normalmente na vida.
Vez ou outra é que ligo a tomada chamada blog. Por que tenho um blog? Por que escrevo coisas aqui? Para mim isso não é virtual, como certa vez respondi para Tiago. Mas, isso é só algumas muitas vezes. Noutras, tenho total consciência de que é virtual sim. Mas, virtual não é mentiroso. E por não ser mentiroso também não é que tudo seja a verdade mais verdadeira do mundo.
Às vezes há direcionamento ou psotagens direcionadas para pessoas, outras: não. Misturebas.
E tem a grande questão da escrita. Do escrever para matar demônios. E para criar outros tantos.
Talvez o espaço dos comentários seja mesmo um indicador que há interação. Pois há mesmo abertura para um tipo de diálogo. Se eu escrevesse e cagasse, talvez fechasse o espaço para os comentários.
Mas, não tê-lo fechado também não indica necessidade de que haja essa tal interação. Pois, muitas vezes escrevemos aqui para escrever e pronto. Porque escrever salva. Porque escrever mata demônios. Porque escrever cria outros tantos demônios. Porque a gente não sabe de nada nessa vida. Porque escrever corta, sangra, mata, agride, melhora, adoece, cura. Porque as palavras têm rabo e a gente gruda nesses rabos das palavras e vai parar não sabe aonde. E porque a gente também as usa para não falar e para não fazer nada.
Seja como for, a gente pensa nas palavras e no ato de escrever. Para bem ou para mal. Isso nos interessa. A linguagem nos une e nos parte. Mas, amamos ou odiamo-las. O que não resta dúvida é de que algo sentimos por ela. Ela é a nossa grande questão. Antes de tantas outras tão grandes e tão, tão. Tão importantes para a gente também.
E, para amantes tão singulares da linguagem, nada melhor do que maracujá com açúcar. Para acalmar. Mas, também para esquecer o açúcar e lembrar do azedinho da vida. Do azedume de viver. Ou para esquecer o azedo e lembrar do doce do açúcar. La doce vita. O doce que mata. A diabete. O veneno doce. A gordura que fere.
Paracalmar. Maracujá com açúcar. Escrever para matar demônios. E para criar outros tantos.
Uma mistureba. Uma experimentação. Eterna até o tempo em que durar. Sempre cheia de interrogações, reentrâncias. Verdade e mentiras. Idas e vindas. Renovações e permanências.
Interação nem sempre tão interativa. Citações. Paródias. Teorias. Práticas. Escrevinhança. Pontes. Travessias. Desdobramentos. Infinitudes finitas. Paradoxos. Contradições. Popular. Erudito. Pseudo. Pimba. Da moda. Demodê.
Escrevi isso agora enquanto me perguntava tantas outras coisas. Mas, quis dizer só essas (ou nenhuma). E disse-as. Para quem? Esqueci de escolher. Tanto faz. O destinatário, o destino, o remetente, as noções, as divisões, as classificações, os porquês. Pouco importa. Disse. Escrevi. Quilos para nada dizer.
Essa é a graça. Ou a desgraça. Posso prolongar. Encurtar. Enrolar. Cansar. A mim e aos outros.
Outra coisa vista/ouvida no filme: não gostou? Não lê.
Nervoso (a) com a futilidade e com a inutilidade do texto? Maracujá com açúcar, bem.





quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Experiência

A casa era cheia de tintas, cores, pincéis, o cheiro do tiner, forte, quase desmaiador e depois gostoso de se sentir no costume da tontura.
Tinha um paninho, onde a mãe limpava os pincéis, e de tantas cores e de tão colorido, era sujo, sem forma, abstrato.
Criança, a menina pegava as caixas de tintas da mãe e ia brincar. Era a noite, a hora em que a mãe não pintava, pois usava óculos, sentia "as vistas ruins". Então, pegava as caixas de tintas e ia brincar. Separava as cores que achava femininas e as cores que achava masculinas. Tinha os pares, os casais, com tal separação. Brincava de família, de casinha com as tintas. Nomeava-as. Brenda, Paula, Tony, Ken (o marido da Bárbie), mas nunca ousou chamar alguma delas de Bárbie.
Depois, tinham as linhas, os muitos novelos de linhas, de tantas cores, as agulhas. A de bordar, a de fazer crochê, a de fazer tricô. Umas bonitas, misturadas. Faziam um trançado bonito.
Tinhas os desenhos, os debuxos, como chamava a mãe. As formas, os moldes, para a pintura de modo vazado.
A menina era acostumada com isso das mãos. Pois a mãe trabalhara fora por muitos anos. E quando veio a aposentadoria, dedicou-se a trabalhos manuais.
A casa, então, era colorida, bagunçada de panos, tintas, linhas, agulhas, pincéis, vidros, telas. Um campo aberto e visual e olfativo para a imaginação.
Mas, as tardes eram muito gostosas. Tinham cheiro de bolo ou de biscoitos assando no forno. Chá. Café. Conversa boa. Os olhos por cima dos óculos.
A mãe também escrevia. Fazia perfume. Misturava essências. Pintava panos e fazia capas de cadernos. Cadernos para receitas como picles, compota de maçã, doce de vidro (de mamão verde). Tomate seco.
Cadernos para poesias. Os segredos dos diários. Os azedantes cadernos de contabilidade. E o saudoso caderno-com-a-mamãe onde fora a menina alfabetizada entre carinhos e carões. entre muitas teimosias também.
E iam assim passando os dias entre trabalhos manuais, contabilidades, receitas, cheiros de comidas, conversas e lições escolares.
E tinham os filmes. As fitas. Assistiam a muitas fitas. E a mãe falava de outras tantas de antigamente.
Antigamente era uma palavra que estava se tornando recorrente com o passar dos anos: a mãe dizia estar envelhecendo.
Mas, aquela mãe-mulher também adorava os cheiros das flores. E comprava muitas sementes para semear no quintal. E dava certo!
Tinham couve-folha, coentro, tomate, cebola, manjericão para macarrão cheirinho bem ali no fundo da casa onde moravam. Tinham as folhas para os chás. Cidreira. Tinham rosas. Jasmim. Cheirava, cheirava os jasmins de manhã, a menina, logo cedo com seu doce cheiro doce.
Eram dias tranqüilos quando o eram para ser e intranqüilos quando também o eram para ser.
Experimentavam fazer de tudo. Faziam receita para fazer queijo cremoso. E comiam com pão. Levavam para os vizinhos.
Tentavam fazer talco, detergente. Depois riam das tentativas e das quantidades exageradas. Mas, não cabia presentear os vizinhos com talco ou com detergente.
Era uma casa cheia de cheiros, de cores, de sentido.
Era uma casa cheia de música também. A mãe cantava sempre.  E era bonito esse seu cantar. E fazia roda e juntava gente.
A casa era cheia de alegria. Até porque, a  menina,desafinava e elas se riam, todos riam. E a casa era um riso só.

P.S.: olha a minha cara olhando a tela. A idéia era fazer uma experimentação. Sair escrevendo aelatoriamente e depois captar a minha cara.
Não compreendi nada de nenhuma das expressões (nem da escrita, nem da fotográfica).
Ok.