
E, para não estragar a sessão, não digo mais nada, exceto que: 1 – eu e Vanessa Lacerda ainda estamos a nos recuperar do forte transe frenético que o filme nos causou; e 2 – ele tem que ser assistido em volume altíssimo, agora, já!
Wesley PC>
A cena acima faz parte do clímax de “Equus” (1977), último filme do cineasta Sidney Lumet visto por mim, até então. Não sei se se pode falar realmente em clímax no que diz respeito a este filme, dado que experimentamos um verdadeiro périplo de extrema angústia diante desta obra excruciante e irregular, em que um psiquiatra que experimenta uma dolorosa crise matrimonial aceita averiguar que motivos levaram um jovem religiosamente perturbado a rasgar os olhos de seis cavalos com uma lâmina. Não preciso dizer que o filme como um todo, teatral até o limite do monologo direto para a câmera, é uma jornada de dor e confissão, em que a suposta redenção não se dá por outra via que não a do diálogo. E manutenção de diálogos enquanto profissão é uma das maracás registradas deste brilhante artesão hollywoodiano que morreu hoje, 09 de abril de 2011, aos 86 anos de idade: Sidney Lumet entendia de pessoas que eram pagas para conversar! Foi assim no primeiro longa-metragem que dirigiu [“12 Homens e uma Sentença” (1957)], foi assim no filme que enfeita esta postagem, foi assim em sua ótima obra derradeira [“Antes que o Diabo Saiba que Você Está Morto” (2007)]. Foi assim em seus clássicos que eu ainda não vi [“Serpico” (1973) e “Rede de Intrigas”], foi assim em suas quase unânimes obras-primas [“Um Dia de Cão” (1975) e “O Veredicto” (1982)], foi assim em seus filmes que mais me feriram particularmente [“Longa Jornada Noite Adentro” (1962) e “O Peso de um Passado” (1988)] e foi até mesmo assim em seus filmes menos inspirados [“Tudo o que Sempre Quis Ouvir” (1980) e “Glória – A Mulher” (1999)].
O texto confessional mais detido ainda está em processo, mas tenho que colocar para fora uma descoberta pungente no que tange à minha subsunção à conversão religiosa proto-institucional: por estar apaixonado por um católico tendente ao silêncio, fui vítima do silêncio na noite de hoje. E silêncio é algo que me fere como quase nada neste mundo, quem me conhece sabe! E, neste silêncio de impaciência, sentei em frente à minha casa e passei a ouvir “Passos no Silêncio” (1998), da irmã Kelly Patrícia. Dádiva gozosa!