sábado, 5 de março de 2011

O REIZINHO GAY (Hilda Hilst)

Mudo, pintudão
O reizinho gay
Reinava soberano
Sobre toda nação.
Mas reinava...
APENAS....
Pela linda peroba
Que se lhe advinhava
Entre as coxas grossas.
Quando os doutos do reino
Fizeram-lhe perguntas
Como por exemplo
Se um rei pintudo
Teria o direito
De somente por isso
Ficar sempre mudo
Pela primeira vez
Mostrou-lhes a bronha
Sem cerimônia.
Foi um Oh!!! geral
E desmaios e ais
E doutos e senhoras
Despencaram nos braços
De seus aios.
E de muitos maridos
Sabichões e bispos
Escapou-se um grito.
Daí em diante
Sempre que a multidão
Se mostrava odiosa
Com a falta de palavras
Do chefe da Nação
O reizinho gay
Aparecia indômito
Na rampa ou na sacada
Com a bronha na mão.
E eram ós agudos
Dissidentes mudos
Que se ajoelhavam
Diante do mistério
Desse régio falo
Que de tão gigante
Parecia etéreo.
E foi assim que o reino
Embasbacado, mudo
Aquietou-se sonhando
Com seu rei pintudo.
Mas um dia...
Acabou-se da turba a fantasia.
O reizinho gritou
Na rampa e na sacada
Ao meio-dia:
Ando cansado
De exibir meu mastruço
Para quem nem é russo.
E quero sem demora
Um bocado negro
Para raspar meu ganso.
Quero um cu cabeludo!
E foi assim
Que o reino inteiro
Sucumbiu de susto.
Diante de tal evento...
Desse reino perdido
Na memória dos tempos
Só restaram cinzas
Levadas pelo vento.

Moral da estória:
a palavra é necessária
diante do absurdo.

Meia palavra


Sou dos que lêem 2, 3, 4 livros, ao mesmo tempo. E não, não sou intelectual. Logo, não sei resenhá-los. É com prazer que os leio.

Leio 2, 3, 4 livros, ao mesmo tempo, porque tenho uma sede esquisita. Inicio um, começo outro. E ao contrário do que um amigo muito querido pensa e diz, eu sempre os termino. É que me deixo levar pela escrita. Deixo que um livro descanse enquanto volto para o outro. Não acho que isso seja ruim. E admiro quem sempre inicia um livro e segue fiel a ele até o fim.

Quando começo e sigo fiel até o fim é porque a primeira penetração foi extraordinária. Ocorreu com “Água Viva” de Clarice e com tantos outros. Agora, por exemplo, estou sendo fiel a Justo Navarro, no seu “Irmã Morte”. Navarro é espanhol, nascido em Granada. Dá voz a um adolescente que não aceita o pai morto e vê, nos homens da irmã recém prostituta, pedaços do corpo do pai. Num dia chega o nariz, noutro os ombros, noutro as mãos.

É um bom livro. E vou continuar lendo 2, 3, 4, ao mesmo tempo. Repetindo uma postagem anterior: tem gente que fuma maconha e vai à igreja e tá tudo muito bom, muito gostoso. Eu leio vários livros, ao mesmo tempo. E enjoei de maconha e enjoei de igreja.

sexta-feira, 4 de março de 2011

no carnaval


Eu gosto do carnaval.

é madrugada
recife me aguarda
querem me levar
e muitas coisas dizem não
e é hora de escolher,
na verdade
não vou não posso
sonhei ruim
coração apertado
morte
matei
é madrugada e insônia
pesadelo....
socorro
dias ruins
das bons

"A gorda da cadeira"

Gorda como ela na rua não tinha. Gorda como a lua prata no céu. "A gorda da cadeira". Diziam assim dela, sentada, toda prostrada sobre a cadeira branca de plástico, à porta de casa. As pernas da cadeira já remendadas davam à imagem o toque do grotesco. Não sei como a cadeira aguentava. Mas ela era assim, igualzinha a Lua, gorda e solitária. Absorta, com a cara pra cima, brilhante, de tão oleosa. Os cabelos lisos e pretos, molhados de suor, se vertiam para dentro do imenso par de peitos. Houve um tempo em que eu até me masturbava pensando nela. Tenho tara por gordas. Hoje de manhã, a notícia da morte me deixou desgostoso. Seu Onofre, meu vizinho, me disse festejando que ela havia infartado durante a madrugada. Ali na rua nada acontece de diferente faz anos. Ninguém casa, ninguém morre. Só a notaram, disse o velho, às sete da matina. Ela acordava, tomava o café, ligava a vitrola e sentava à porta de sua casa, todos os dias, há mais de vinte anos. Sempre com um mini-short de seda vermelho e uma blusa de malha branca. Encardida, com as banhas a lhe escapar pelos buracos. Ninguém reclamava e também ninguém entendia. Só a notavam quando precisavam passar pela calçada. Ela atrapalhava a passagem dos transeuntes, toda imensa e espraiada na cadeira. Não sei se mais alguém lembra, mas eu lembro que ela não havia sido sempre assim. Eu lembro porque eu notava a Sônia, eu sempre a notei. Ela não notava ninguém.

quinta-feira, 3 de março de 2011

qual O sabor da saliva de um cachorro? Eles existem como nós mas não se importam com a nossa saliva. o que é ser cachorro. ? O que é "o que é"?
A coisa mais profunda que em mim há. A mãe das minhas profundezas chama-se coisa. Eu exijo deitar e dormir. O mínimo de respeito a minha condição. Essa situação, essa miséria de existência.
Miséria. Essa mesquinharia..................... oh, coisa! dái-nos logo a óbvia plenitude de existir.... ! Miserávelllllllllllllllllllllllllllllll . miserávellllllllllll. SÁDICA!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!1
SÁDICA E MISERÁVELlLLLLLLLLLL!!!!!!!!!!!!!
SÁDICA. QUALQUER PALAVRAAAAAAAAA!!!!!!!1111111111111111111111111111111111111111!!!!!!!!!!!!
E NÚMEROS!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!1 E
É O QUE ME RESTA.
EUUUUUUU SOOOOOUUUUU O QUE ME RESTA,,,
F B GGG[

E TU ÉS O QUE TE RESTA, ÉS A ÚLTIMA COISAAAAA
SOU A ÚLTIMA COISA

SOU A MINHA ESSÊNCIA K, K, K, K, KKKKK

MASOQUISTAA

Imagem

Tudo cabe dentro do espelho. Tenho certeza absoluta que é por isso que, quando me posiciono diante dele, vejo o próprio espelho. Desse lado, onde não há essa barreira sólida e invisível, a certeza é de que componho o tudo. Mas quando olho o espelho, de qualquer ângulo, é outra a ideia que me vem.