quinta-feira, 3 de junho de 2010

Obsoleta




Ok. Sou obsoleta quando o assunto é a última notícia, o último vídeo que bombou na Internet. Eu não tenho Internet em casa e os meus acessos são restritos e, geralmente, apressados. Portanto, filtro mesmo tudo o que me interessa e eis que navego como quem está em um barquinho em alto-mar. Não vou longe. Não me demoro.
Portanto, a notícia é atrasadíssima, mas me causou estranhamento. E estranhamento é bom para desautomatizarmo-nos e pensarmos nas coisas da vida, né?
Deparo-me com uma foto de uma criança da Indonésia que aos dois anos de idade fumava 40 cigarros por dia!
As notícias que via e lia eram de maio. Mês passado. Obsoletas, portanto, para a "bitola" internética!
Busquei mais sobre crianças fumantes e vi a notícia de Capena, vilarejo italiano, onde na festa de Santo Antônio as crianças são liberadas para fumar. Fumar para Santo Antônio.

Fica o vídeo para os que, como eu, são atrasados e não viram isso bombando Internet a fora mês passado.
Eu, vou ficar aqui pensando. Afinal, é a cultura dos outros. E quanto a isso, devemos sempre pisar em ovos antes de falar qualquer coisa.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Fim de férias


Hoje foi o me primeiro dia de trabalho, depois de me recompor, (se é que isso seja possível) durante trinta dias, do estupro provocado pela venda da minha força e do meu tempo ao Estado, que me paga por isso em longas e pequenas prestações, volto ao sacrifício que me põe num status de não marginalizado(sera?), sou um pequeno parafuso que junto com tantos outros sustenta a engrenagem de sistema maligno que comanda nosso modo de vida.
Todavia tenho lidado com isso de uma forma estranha e junto com o envelhecimento progressivo e rápido do meu corpo entro num processo de estranhamento comigo mesmo que me põe crise. Tentando avaliar esses dias de descanso concedida pelo aparelho estatal, fiz ao fim muita coisa? E não sei, mas sinto como se tivesse feito e não feito, isso tudo é muito estranho!
Dentre uma das atividades, foi acompanhar um seminário de literatura e cultura na universidade, e eis que no primeiro dia ou no segundo um professor afetadíssimo quis criar polêmica, dizia ele que a literatura feminina brasileira até meados dos anos setenta não dava voz para o outro e não apresentava nada de novo, a literatura de Clarice Lispector por exemplo estava preocupada apenas com as angústia da mulher burguesa. Não estudo teoria l iteraria , porém, já li muito da literatura brasileira, não o suficiente é claro, mas o suficiente pra saber quê o que este proto-irônico professor dizia era totalmente infundado e imbecil, porém a plateia aceitou, ao menos não se manifestou de modo contrário a não ser a voz tímida de uma professora.
Mas depois de conversar com uma amiga minha mais entendida sobre o assunto fiquei mais aliviado, a mesma concordou com meus questionamentos e colocou outros.
Mas no último dia de evento o professor que estava sendo homenageado abriu a boca e desmontou a fala anterior, simples e extremamente fundamentado, entre outras coisas dizia ele que os estudos culturais são importantes mas vazios se quando analisa a literatura esquece que ela é antes de qualquer coisa linguagem e Clarice Lispector fez da sua escrita uma experiência inovadora da linguagem na literatura brasileira.
Percebi ali um sensatez discursiva que me fez bem, senti que minha consciência amadureceu junto com o meu corpo e isso no fundo eu acho muito bom.
Enfim de volta ao trabalho!


Jt

Violette Leduc


Acho uma pena termos traduzidos aqui no Brasil apenas dois livros de Violette: A bastarda (encontrado apenas em sebos) e Teresa e Isabel (encontrado ainda em livrarias - onde comprei o meu!). Esta narrativa (Teresa e Isabel) compunha a primeira parte de Ravages, romance apresentado às edições Gallimard em 1954. Avaliada como “escandalosa” esta primeira parte foi censurada pela editora. Foi em 1948 que Violette Leduc, animada por Simone de Beauvoir, começou a escrever este texto isolado no qual ela trabalharia por 3 anos — e com o qual desejava descrever o mais precisamente possível as sensações provadas no amor físico (entre duas jovens alunas de colégio interno).

No início dos anos 60, parte de Thérèse et Isabelle surgiu no terceiro capítulo de A Bastarda: Violette Leduc havia eliminado algumas passagens, amainado metáforas, alterado alguns diálogos. O livro, numa versão ainda com diversos cortes foi publicado em 1966. A versão integral só veio a público no ano 2000.


Um trechim de Teresa e Isabel:

Eu fazia-lhe perguntas, exigia silêncio. Nessa ladainha nos queixávamos, nos revelávamos atrizes natas. Nos apertávamos até a sufocação. Nossas mãos tremiam, nossos olhos se fechavam. Parávamos, recomeçávamos. Nossos braços pendiam, nossa pobreza nos maravilhava. Eu modelava seu ombro, queria para ela carícias rústicas, desejava sob minha mão um ombro fremente, uma casca. Ela fechava minha mão, alisava um cascalho. A ternura me cegava. Rosto no rosto, nos dizíamos não. Nos apertávamos pela última vez, uníamos dois troncos de árvore num só, éramos os primeiros e os últimos amantes como somos os primeiros e os últimos mortais quando descobrimos a morte.

Ah, é?












03

Ao tirar a calcinha, ele rasga. Puxa com força e rasga. Vai por cima. Ó mãezinha, e agora? Com falta de ar, afogueada, lavada de suor. Reza que fique por isso mesmo.

Chorando, suando, tremendo, o coração tosse no joelho. Ele a beija da cabeça ao pé — mil asas de borboleta à flor da pele. O medo já não é tanto. Ainda bem só aquilo. Perdido nas voltas de sua coxa, beija o umbiguinho.

Deita-se sobre ela — e entra nela. Que dá um berro de agonia: o cigarro aceso na palma da mão. Mas você pára? Nem ele.

04

Só de vê-la — ó doçura do quindim se derretendo sem morder — o arrepio lancinante no céu da boca.


"Ministórias" extraídas do livro "Ah, é?", de Dalton Trevisan.


Na imagem, capas de livrinhos dele. Coleção de bolso. Mundos inimagináveis em cada um deles. Adoooooro!

Do desejo













Quem és? Perguntei ao desejo.
Respondeu: lava. Depois pó. Depois nada.

(Hilda Hilst)

Essa tela, de Alexandre Cababel é de 1863. Gosto muito, apesar de não entender nada de pintura, de artes plásticas - a relação que tenho é a mais primária possível: olho e a tela, o quadro, me captura, meio que me pesca. Mas, gosto desta dele especialmente porque ele utiliza a célebre referência mítica do nascimento de Afrodite: Cronos castra seu pai Urano e lança ao mar os testículos. Da espessa espuma do esperma, surgiu Afrodite, deusa do amor e da beleza, identificada como Vênus, entre os romanos.

Certa vez li em um livro de Muniz Sodré que “o olhar é um meio de possuir ou ser possuído, completamente análogo aos órgãos sexuais, que possuem e são possuídos”. Gosto de pensar nisso quando olho um Cabanel, um Courbet, um John William Godward, um Lefevbre, um Guillaume Seignac, tão diferentes entre si e tão pescadores de mim...

terça-feira, 1 de junho de 2010

A CATARSE ANTECIPADA

Antes de dormir, vi um filme surpreendente. Um filme que, na verdade, eram sete, mas que funciona muito bem justamente por ser coeso (ou quase, visto que o último segmento quase degringola o conjunto). Um filme que tinha tudo para resvalar no óbvio ululante, visto que sua proposta de amalgamação entre pornografia e arte é um tanto batida no universo ‘pimba’, mas que, ainda assim, conseguiu me deixar algumas horas em claro, pensando na experiência que havia penetrado meus sentidos minutos antes. Um filme que se chama “Destricted – 7 Vezes Erotismo” (2006), que é dirigido por sete conceituados artistas, com diferentes visões (e pré-conceitos) de mundo e que voltará a ser objeto de postagens futuras de minha parte, deslumbrado como consigo ser...

Para começo de conversa, queria destacar o segmento “Impaled”, conduzido por meu mentor cinematográfico-hebefílico Larry Clark, que assume que se utiliza da Sétima Arte para sanar seus delírios psicóticos mais extremos, em contraste com seus vícios conservadores (in)assumidos. No segmento, ele entrevista vários rapazes que responderam a um anuncio de jornal. Os meninos são perguntados sobre quando perderam a virgindade, sobre as preferências sexuais, sobre quando começaram a ver filmes pornôs e sobre as opções estéticas que implementam sobre seus pêlos pubianos. Todos mostram seus pênis para a câmera e um deles é escolhido para fazer sexo com uma atriz pornô diante desta mesma câmera. O escolhido, portanto, passa a conduzir entrevistas com várias estrelas do sexo filmado e, depois de escolher aquela que mais lhe apraz (uma empolgada mulher de 40 anos, que se atira sobre ele – algo que tanto eu quanto o Larry Clark desejavam também fazer!) comenta que o sexo anal lhe incomoda um pouco porque ele sente nojo de perceber os resquícios de merda sobre sua rôla. E eu estava lá, cúmplice de toda esta brilhante experiência, gemendo de gozo e satisfação, ciente de que o hipermodernismo pode também dar origem a uma obra tão inspirada e sensual como esta!

Terei novas oportunidades para comentar os demais segmentos do filme, mas esta obra-prima em média-metragem de Larry Clark merece encômios demorados de minha parte. O modo como as entrevistas (em ambos os momentos do episódio) são conduzidas e a sensualidade inerente a todo o contexto interrogativo e posteriormente produtivo me deixou em estado de transe, satisfeito por perceber que o diretor está evoluindo politicamente, que seus anseios antropológicos e pervertidos estão cada vez mais serventes a uma causa ampla, na qual eu me incluo como beneficiado curativo. E olha que eu estou a falar de um profissional com 67 anos de idade, que, desde a década de 1960, engendra radiografias maravilhosas do universo adolescente, como esta que emoldura esta postagem, de nome “Teenager Asleep”, constante do livro de fotografias “Teenage Lust” (1975).

Larry Clark é um gênio catártico – e eu sou seu fã incondicional!
Preciso dele para me sentir e fazer o bem...

Wesley PC>

Como escrever sobre coisas em que não acredito?




Antes de conhecer um pouco mais o sistema filosófico proposto por de Immanuel Kant, sentia uma profunda desconfiança, chegando até a um preconceito descabido. Depois com o contato paulatino com a obra que talvez mais se estude hoje no mundo (ao menos em filosofia) “ A Critica DA Razão Pura” tive que ceder ao brilhantismo sintético do alemão, digo sintético, porque percebi que o que ele fez foi unir o que tinha de melhor na ontologia até então. Esta obra é imprescindível não só para a filosofia mas para qualquer teoria das humanas, se tornou uma obra paradigmática . Contudo, estudando outras coisas do alemão percebi que aquela intuição inicial não era de toda equivocada, estou a ler um texto chamado “ Ideia de uma história universal de um ponto de vista cosmopolita” e estou com dificuldade de ficha-lo pelo simples fato que não acredito m uma só linha escrita.
Neste texto, Kant afirma que a natureza determina as ações manifestadas pelo homem e que tais ações, boas ou ruins são necessárias para se alcançar o progresso da humanidade. E é através do jogo de opostos entre o sociável e o insociável presente no comportamento humano, ou seja, é natural que o homem cometa atrocidades e ao mesmo tempo bondades, pois fundará no fim uma sociedade Justa, onde não se precisará de leis externas, pois a razão chegara a fundar uma sociedade onde a moral imperara de forma perfeita, justa e que levara a suprema felicidade, esse é o projeto que a natureza preparou para o homem.

Alguém aqui acredita que estamos em progresso? Que estamos a caminho de uma sociedade justa? Que existe uma força natural conduzindo o homem, mesmo que por caminhos tortuosos, a um fim em que a moral imperara sem leis?

Eu não acredito e durante a leitura mais coisas estranhas são defendidas pelo autor, que outrora delimitava os limites da razão, e que neste texto vai para além do que ele mesmo delimitou.


JT.