domingo, 9 de maio de 2010
Troco toda a escrevinhagem e toda a teoria por um abraço e um olhar cúmplice (título cafono-brega para respostas de fim de papo ou incío dele)
Mas, falava no tópico-matriz de loucura e exclusão e não da nossa loucura, mas daquela dos que se mijam e se cagam mesmo. E que pode acometer a nós também. E daí, desejava saber o que acontece mesmo? Será que agiríamos como?
Lembrei-me de minha cidade de meninice e de minha mãe simplesmente pelo fato capitalista de ser o dia das mães.
Agora, no exato momento, estou dentro de uma representação. Igual (mesmo que diferente) a que descrevi: sorrindo e dando presente a outras mães.
O que faria eu e vocês com amigos doentes, loucos, seja lá o que for, com pessoas que vocês e eu amamos muito em apuros de verdade?
Juro que amei a resposta com música e a sugestão de concurso de doido.
Poesia e comédia.
E agora, lembrei-me da frase de Clarice Lispector, que talvez tenha nada a ver com tudo isso e talvez tenha tudo a ver: "O adulto é triste e só".
sábado, 8 de maio de 2010
Um sonho com Billie...

Entre fumaça e gargalhadas uma dose de qualquer coisa. No bar uma música e uma bêbada cantando. Um vidro se quebrou:
- Sou velho, o que quer?
- Essa tua vara.
- Garoto de programa?
- Amante das artes.
Homens armados invadem o recinto e Billie se cala no palco. Um puxão para dentro do banheiro, que fedia.
- O que servem aqui? – indagou um dos caras.
(Nenhuma palavra.)
- Continuem.
Língua inocente percorria do escroto à grande cabeça. Deus velho fugira do Olimpo.
Billie cantava. Meio sorriso calhorda. Era uma cadela.
Algum dia ele virá/ O homem que eu amo
E ele será grande e forte/ O homem que eu amo
E quando ele aportar em meu caminho/
Farei gostoso pra que ele fique.
No banheiro, uma serpente arrombava um cuzinho de garoto. Serpente madura de veias grosseiras, cheirosa de sexo.
- Empurre fundo!
- Arr.... Urrr – o Velho leão.
A serpente vomitara. Lambuzara a face espinhenta do cordeirinho.
Acordei com pingueira em minha boca.
Chovia pesado.
A música da semana: (estou tentando usar de uma nova sensatez que venho aprendendo)
Balada Do LoucoComposição: Arnaldo Baptista / Rita Lee
Dizem que sou louco por pensar assim
Se eles são bonitos, sou Alain DelonS
Mas louco é quem me diz
Se eles têm três carros, eu posso voar
Mas louco é quem me diz
Sim sou muito louco, não vou me curar
(Pinel)mático
Corri um desses em direção ao mar. Outro dia, desesperadamente precisava estar em um ponto de ônibus: a sensação era de despedida. Perdido em mim? Não sei. Agora uso remédios... é que de vez em quando, quando não os uso, a sensação é de despedida. E embora crie rotas de fuga com frases como: A vida é curta! (esteve durante um bom tempo na tela do meu celular), meu cérebro não faz conexões (agora eu rio porque é engraçado, ao menos para mim, nesse instante em que estou sob efeito da lamotrigina) ... apesar de achar engraçado, as sensações, eu sei, são desesperadoras e juro, por tudo o que eu acredito que mereça respeito, que ADORARIA que fosse frescura, e que se alguém tivesse um manual prático, simples mas eficaz na estabilização da minha percepção das belezas que me rodeiam, do que me faz sentir estar vivo, eu daria TUDO.
Não consigo nem nunca serei capaz de quantificar, medir, nivelar a minha “loucura”. Muito menos saberia fazer isso às “loucuras alheias” porque o que se passa dentro do meu crânio nem mesmo eu sei definir, e francamente, tentando usar toda a sensatez que ainda me resta, não creio que seja diferente com as outras pessoas, há sim especulações e imaginações apreendidas daqui e dali mas a certeza absoluta... eu duvido. Senão, seríamos todos máquinas facilmente programadas e desprogramadas, para sempre inflexíveis, para sempre herméticas, para sempre quadradas ou redondas ou triangulares. Não poderia eu esperar do ser humano o pior ou o melhor? Às 15:30, um homem levanta e ri dizendo que me ama, ele entra no quarto e sai às 15:33 do mesmo dia, aponta para mim um revólver e dispara. Dentro desse meu crânio eu o conhecia hás anos assim como a mim mesmo. Inverossímil?
Deveras exagero quando penso que tudo é tão natural... Mas e não e? O que poderia eu esperar de um ser humano? A certeza de que nunca mudará? A certeza de que nunca se desestabilizará com as dores? De que tomado por fortes sensações e emoções, dessas que tiram qualquer “normal” do sério, ele nunca falará asneiras? Eu rio e espero. O que há de se fazer quando não se tem a mínima idéia do que está acontecendo. Eu rio e espero. Rio porque para mim que estou “externo”, que tenho cá minhas insanidades, parece engraçado. Mas o que um louco desses conscientes podem esperar de outros do mesmo tipo? A loucura, no pior sentido que pode haver da palavra, não seria oprimir-se?? E não falo aqui em aceitar uma opressão, porque daí seria um planeta pinel (como o é) (risos). Oprimir-se ... negar-se oprimido, negar-se fraco, negar-se frágil e desprotegido..., negar-se vulnerável, negar-se louco, negar-se humano, por um grande vestido-armadura e sair andando sobre um campo de batalhas... Mas o que ou quem seria eu para julgar também esse louco. As coisas são o que são ou nada é o que é?
Eu fico aqui... tentando achar que posso ser livre como um pássaro... (agora rio, mas rio com força, com gosto, um riso-gargalhada seguro).... Porque isso não é uma grande loucura??????
Loucura pouca para mim é bobagem.
Pois é. Loucura pouca para mim também é bobagem.
Quem sabe lidar com a loucura? Com a loucura dos outros?
É Cult assistir a filmes “densos”, que abordam o limiar da loucura, personagens desequilibrados, tristes e felizes ao mesmo tempo, que quebram tudo no apartamento quando recebem a notícia da morte de um irmão querido ou que simplesmente sofrem e, em algum momento, expressam isso, cobram de maneira exacerbada seu quinhão em mundo tão excludente e opressor e o cobram assim, de repente, do nada, na verdade: nunca do nada, do nada para os demais, claro.
Na Literatura, a composição de personagens assim é dita “complexa”, “marginal”, “inovadora da linguagem”.
Mas, quem sabe mesmo lidar com a loucura dos outros?
É moda ser excêntrico, as idiossincrasias – em sua grande parte inventadas e teatralizadas, como no Cinema, na Literatura, no Teatro – são comentadas e montadas com toda a acuidade intelectualóide possível e as pessoas se julgam loucas e gostam disso. E ser louco é um barato. É ser diferente. É ser esquisito, extravagante, distante de uma maioria tão normal e normatizada socialmente. Geralmente essas pessoas que se dizem díspares leram a História da Loucura e sabem de cor todo o discurso acerca da discriminação contra os párias da sociedade, os loucos. Essa é uma conversa, um discurso para se defender e repetir veementemente em bares da vida junto aos outros amigos que se dizem “nada normais” e. O discurso da diferença. Essas pessoas sabem lidar com a diferença quando não academicamente falando?
Engraçado é ver essas criaturas encontrando um louco em sua frente. Se o louco é pobre, sabemos que será tratado do mesmo jeito que todos tratam ou, no mínimo, com indiferença. Se o louco é rico, idem. Se o doido é de sua família, sabemos também como a coisa é acordada – às vezes com um carinho envergonhado. Se o louco é seu amigo? Como funciona? É senso comum o tratamento: “Ah, mas é um doido!”. Isso pode ser lido como: “Ah, ele é genial!” ou “Ah, não merece crédito!” e muitas outras traduções contraditórias e diferentes entre si existem para tal caracterização-denominação. Compreende-se muito pela entonação e pelos gestos – os cúmplices da comunicação, os sinais que ajudam a compor a mensagem, a expressá-la melhor. Mas, se o amigo enlouquece de verdade, mesmo que momentaneamente, o que acontece?
Imaginemos essas criaturas excêntricas e diferentes, descoladas assistindo a uma pessoa enlouquecendo aos poucos. Perdendo a razão, essa coisa do socialmente composto que os descolados criticam existir.
É cômico. Esses excêntricos se assustam. Não sabem o que fazer. Distanciam-se. Incomodam-se. Levantam-se. Vão embora. Brigam. Riem. Julgam. Esquecem-se de Foucault. Esquecem-se a História da Loucura. Esquecem-se do discurso último da mesa do bar. Esquecem-se dos tantos filmes com pessoas desequilibradas e dos tantos livros de marginais e personagens densos. Esquecem-se e agem de acordo com aqueles que clamam por um comportamento “sociavelmente” aceito. O desequilíbrio desestabiliza-os. Logo a eles os loucos, leitores e “vedores” de filmes e livros tão incomuns.
A loucura para essas pessoas não é vista. É invisível. Eles não pensam sobre o que é a loucura. A loucura para eles é uma representação. Assim como nas artes, a loucura na vida deles também é a representação de um papel. Mas, coloque-se um louco, um excêntrico, um díspar, uma pessoa densa, que sinta muito o mundo e expresse isso de maneira intensa, que se entregue a viver nessa linha tênue tão elogiada nos filmes e nos livros perto deles e eles pasmam. Eles não agem. Não inter-agem. Desejam logo a normatividade criticada, eles sentem falta do normal, do coeso. E aí o corte, a expulsão dos loucos da sociedade.
Já ouvi de uma pessoa – enquadrada nesse tipo “excêntrico” da moda – perguntar a outro: “Mas, o que é a consciência de si? O que é ser louco? A loucura tem um lugar, quem julga quem é louco ou quem não é?”. Isso, na hora, me fez lembrar-me de O alienista, de Machado de Assis. Já vi essa mesma pessoa, embaraçada diante da demonstração de um sentimento denso, embaraçada diante de uma pessoa que teve alterado inesperadamente o comportamento, e pareceu insana. O defensor de que a loucura era algo construído socialmente comportou-se como todos os que julgam que ser louco é berrar, é alterar-se do nada, etc., etc., como todos nós sabemos: como a força dominante classifica o louco.
Tem-se medo do louco. Tem-se asco do louco. Especialmente, cobra-se do louco que não esteja louco e que se comporte normativamente. Ou tem-se muito cuidado com o louco e trata-o de maneira a desejar agradá-lo para que se acalme (outra representação que comumente beira o sarcasmo e a posição superior de “olha só como se trata louco”). Não se diz: é mesmo, você tem razão. Loucura é perder a razão. Mesmo que essas pessoas descoladas que leram a História da Loucura na universidade digam o contrário na mesa do bar. Mas, não seguem o discurso que repetem, sem acreditar, na vida real, na prática. Na prática, acabam agindo igual às pessoas que tanto criticam, embasadas, embasadas não, repetidoras de discursos que se tornam.
No lugar onde o fato ocorreu, nenhum excêntrico soube compreender os atos de uma pessoa que parecia estar louca, agindo de maneira estranha, de verdade, sem a teatralização costumeira. E o incômodo, o conflito foi gerado. Comentários, os mais senso-comunais possíveis foram feitos. Não souberam tratar essa pessoa de igual para igual.
A loucura só é bonita nas artes.
E falo de toda e de qualquer loucura. Pois elas são classificáveis e mensuráveis também, além de existir a loucura que tem sua razão de ser e a que é do nada, uma loucura louca (risos, velho!Mas, é o que sempre acontece: as pessoas excêntricas da moda precisam de explicações). Para o letrista da música, pouca loucura é bobagem. Comecei a escrever falando que para mim também loucura pouca é bobagem.
Não falo desses loucos de representação. Falo dos outros, dos excluídos até do mundo desses excêntricos montados.
Cresci numa cidade onde havia muitos loucos. Em sua maioria, pobres. Desses que andam nas ruas, que se mijam e se cagam e fedem e bebem cachaça nos botecos e têm apelidos que os enerva e que a população quando queria se divertir, repetia e corria das reações do louco e, agora, nervoso por conta da repetição do que lhe desestabilizava. Na verdade, a população do lugar onde cresci fazia isso com os loucos, com “os viado” – era assim que chamavam homens que optavam por gostar e estar amorosamente, sexualmente com outros homens e que não só faziam a tal opção, como a explicitavam e decidiam afeminar-se: para quê opção mais louca, insana que desejar aproximar-se de ser como uma mulher? (deveriam pensar assim) – com os velhos, com as crianças, com os bêbados, com os “aleijados” (outra denominação preconceituosa). As mulheres sofriam outro tipo de opressão, mais velada e mais privada (afinal é o mundo delas, não é? O da casa e o do silenciamento), porém nunca menos cruel.
Também cresci junto a algumas pessoas que foram acometidas pela depressão – doença da moda, doença dos tempos modernos (pós-modernos??? – eu acho graça! Existir a pós-modernidade quando ainda se vive, na prática, isso de nem saber lidar com loucos, velhos, com as crianças, com as diferenças mais “comuns”).
E aprendi, especialmente, com uma que não era louca nem nunca foi a psicólogo ou psiquiatra, mas que sofria por ser extremamente sensível e que por esse motivo construiu seu “sótão” para melhor suportar a vida com suas máscaras e representações mentirosas e chinfrins. Essa pessoa aprendeu a lidar sozinha com suas tristezas e alegrias, com sua vida pulsando intensamente e a levando a altos e baixos e a explosões. Isolou-se sem que tal isolamento fosse percebido. Entendeu a questão da exclusão não explícita. Essa pessoa não era normatizada, mas calava, disfarçava isso. Sabia o que lhe aconteceria se se mostrasse. Essa pessoa sabia das reações dos descolados e discursadores de bar, inclusive.
Estive muito perto dessa pessoa. O suficiente para compreender que lidar com a loucura dos outros, a loucura de verdade, com a pessoa que sofre com o não-encaixe às regras do sistema, falo de qualquer sistema, a agonia crescente, latente, a opressão, a vontade de gritar, de berrar “chega”, “chega de insistências nefastas, de olhares reprovadores, de conduções escusas e de tanta negação, tanta podação”, lidar com a loucura dos outros é algo difícil, que exige que acreditemos nos discursos que repetimos – o dos acadêmicos que lemos, o dos filmes a que assistimos e o dos livros que lemos tão admirados, se desejamos realmente não julgar, optar pela excentricidade.
Tudo o que escrevi, até agora, nesse texto, percebo: é insignificante, desconexo, desenfreado. O que estou a defender? Eu conversei com loucos e compreendi a loucura deles. Não sentia medo, enxergava ali, em meio a tantas “incoerências” (em relação ao discurso oficial do que é ser bom da cabeça) ditas, a revolta de estar no mundo da maneira que estavam – era tamanho absurdo o que se cobrava das pessoas, pensava eu, que elas não agüentam, rebentam, gritam, “perdem a razão”(a razão do mundo que os oprimiam, que os adoeciam). A loucura era um grito, era uma fuga.
Eu não via os loucos da cidade de minha infância “azoarem” (apelidar, “mexer”, desestabilizar) uns com os outros. Eram sempre os normais que se divertiam com tal “brincadeira”. Esses que se divertiam, lógico, eram julgados (como estou a fazer aqui) pelas pessoas normais e diferentes (descoladas, excêntricas, distantes dos demais normatizados) que encaram a loucura do ponto de vista conceitual mais humano, que clamavam por uma não exclusão dos loucos, mas que os viam com a mesma distância que os demais, só que eram politicamente corretos.
A loucura é um tema difícil.
Mas, para mim e para muita gente, se for pouca: é bobagem.
Cansada da normatização, estou eu. Cansada da normatização até desses excêntricos de mentira, esses díspares da moda, das universidades, dos botecos e da leitura rasa da História da Loucura e da loucura mesmo, da loucura viva, real, que pode acometer – e acomete mesmo – qualquer um e até mesmo esses excêntricos de mentirinha, de prédio de cidade grande, admiradores de arte densa, de personagens complexos e que não sabem lidar, senão com a normatividade.